2008-02-13

Route 66 - notas de viagem V

9-6-2007 - Primeiro dia na estrada
Levantámo-nos às 6H30 da manhã, com um sol radioso que, aliás, já ía alto e saímos de Chicago mergulhando na Interstate 55 com o propósito de seguir até Springfield. Quem diz que o Alentejo é plano nunca andou por estas bandas, anotei no caderno. O Illinois é plano. Plano e verde, plano e verde durante centenas de quilómetros. Paramos em Pontiac para esticar as pernas e fizemos o nosso primeiro troço da Route 66, onde o João se estreou a conduzir. Em Bloomington um engano obrigou-nos a dar umas voltas suplementares. Aproveitei para, numa estação de serviço, fazer o que já devia ter feito antes: obter o mapa oficial das estradas do Estado.
Por estas alturas já estava quase convertido às virtudes das mudanças automáticas e convencido de que conduzir nos EUA é muito fácil. Tudo à mesma velocidade, tudo muito certinho, tudo muito bem sinalizado. Sem sinais, diga-se. Os sinais de trânsito nos Estados Unidos são poucos, muitas vezes substituídos por placas onde, simplesmente, se escreve o que o condutor deve ou não deve fazer. O mais curioso de todos e frequente é, aliás, escrito em letras garrafais no próprio alcatrão PEDXING, cujo significado só o João descobriu: Pedestrian Crossing. Estranho para um português é o facto de os semáforos estarem, em geral, colocados depois do cruzamento. Mas a adaptação foi muito fácil e, poucos cruzamentos depois, já estávamos todos convencidos de que a medida é inteligente. Tem, pelo menos, duas vantagens: pode-se virar à direita com o sinal vermelho e o nome das ruas transversais está quase sempre bem visível numas placas verdes e compridas colocadas no mesmo suporte do semáforo.
Chegados a Springfield fomos direitinhos ao Cozy Drive In. Trata-se de um dos estabelecimentos clássicos da Route 66, cheio de turistas, de memorabilia da Route 66 e de Harley’s estacionadas à porta, num cenário que se há-de repetir ao longo da viagem. O Cozy Dog é bom mas as batatas fritas que o acompanhavam tinham um ar perfeitamente desgraçado, moles e negras, como se tivessem sidos feitas em óleo usado vezes de mais. Não há álcool. Há uma coisa pavorosa chamada Bier Route 66. Sabe a qualquer coisa parecida com elixir bocal. Na generalidade dos restaurante americanos não há alcool. Parece que para vender alcool é precisa uma licença especial e, de qualquer modo, na maioria dos Estados é, de todo, desaconselhável cheirar alcool quando se conduz. No illinois, por exemplo, exceder a taxa máxima de alcoolémia permitida nos condutores é motivo para penas duras que podem incluir a cassação da carta, um ano de prisão e $2000 dólares de multa
Springfield (terra de Lincoln) é uma cidade estranha. Capital do Illinois, funciona de segunda a sexta. Hoje é sábado e, por isso, está deserta de políticos e de funcionários e só os turistas lhe dão alguma animação. O Capitólio, onde fizémos uma visita guiada e Barak Obama lançou a sua candidatura presidencial, é um edifício muito interessante, na sua traça neoclássica, de planta em cruz, com cúpula central, semelhante a diversos Capitólios que se podem encontar em outras capitais de Estado americanas. A loja do museu Lincoln (aqui tudo parece girar à volta de Lincoln) tem tudo à venda, até pedaços de madeira, certificados e numerados, da casa de Lincoln. Em frente há uma antiga estação de comboio da Amtrak, impecavelmente recuperada. Bonitinha, mas parece Walt Disney. Eu nunca diria que se tratava de uma estação de comboios. Deviam ter deixado um bocado de linha para orientar os distraídos.
Chegámos cedo ao Motel que tinhamos reservado em St. Louis North. A par do de Hollywood foi o pior Super 8 que conhecemos. Os quartos até nem eram maus e pareceram limpos mas a alcatifa do Hall de entrada que é ao mesmo tempo recepção, sala de estar e sala de pequenos almoços, essa, não via uma limpeza decente há demasiado tempo.
A fim da tarde fomos até St. Louis. O Busch Stadium estava a abarrotar de gente. A Lena descobriu no Route 66 Dining & Lodging Guide que tínhamos comprado na Amazon para ajudar a planear a viagem que, em Chipewa, a sul de St. Louis, há uma gelataria a não perder. Encontrámo-la com facilidade. Grande espectáculo. Em volta de uma pequena casa de madeira com um balcão dando directamente para a rua, com uns taipais levantados à maneira das roulotes de couratos no Campo Grande em dia de futebol, dezenas e dezenas de pessoas, famílias inteiras, a comer gelados servidos em enormes copos de papel encerado. Gelados bons, aliás. Foram o nosso jantar. O Ted Drewes Frozen Custard merece bem a estrela (worth making plans to visit) que o Route 66 Dining & Lodging Guide lhe atribui.

2008-02-05

Barcos, Alturas e Limousines

(Route 66 – notas de viagem IV)
A meu ver, se há coisa que nunca se deve perder em qualquer local que visitemos é um passeio de barco, se o houver.
Quando o Zé Maria venceu o Big Brother levaram-no a Paris e foi ver os telespectadores a rir, galhofando do barranquenho, no Sena, na proa do bateau mouche, de olhos arregalados e boca aberta de espanto. Eu, por mim, já fiz aquela figura por duas vezes e não me importava de a fazer pela terceira.
Também na América há que entrar em todos os barcos que façam passeios turísticos:
Na Briktown de Oklahoma City, apesar dos mosquitos e da jovem timoneira, também ela americanamente simpática e mais pesada do que recomendaria qualquer médico e faladora, faladora, mais barulhenta que um bando inteiro de gralhas.
No rio Mississipi em Saint Louis porque é daí que se pode ver o Arco em toda a sua grandiosidade, simplicidade e beleza.
Na baía de São Francisco, desde Fisherman's Wharf até Golden Gate Bridge (há um cruzeiro alternativo com visita a Alcatraz mas eu nunca viajo para ver coisas feias e prisões, sei-o por experiência profissional, são lugares feios).
Em New York, desde Battery Park até Liberty Island (é preciso ir também, a Brooklin e ao topo do Empire State Building, porque andando em Manhattan não se vê Manhattan). À Estátua da Liberdade não pudemos ir. Consta que as bichas são enormes e que o melhor é comprar o bilhete um ou dois dias antes. De qualquer modo, àquela hora, já estava fechada.
Mas, passeio de barco é no Rio Chicago, em cujas margens se debruçam todos os arranha-céus que justificam o apelido da Architectural City. Inicia-se a viagem perto do Navy Pier que é hoje um parque de diversões, como o é o Pier 39, San Francisco's Premier Bay Attraction, onde o cruzeiro à ponte começa pela vista da colónia de leões marinhos que resolveu fazer casa dentro da doca, em cima de uma balsa. Há aqui atracções que, para um maluco dos camarões e do cinema como eu, são imperdíveis: O Bubba Gump Shrimp Co. Restaurant and Market, uma indústria criada à sombra de um filme, onde os camarões panados e o ambiente são uma delícia. Há, também, fruta que só se viu na Califórnia: umas cerejas gigantes que provámos e gostámos e uns morangos do tamanho de maçãs que vimos ser compradas à peça, acompanhadas de um boiaozinho de uma compota estranha (a Lena diz que era chocolate) onde o jovem casal de compradores mergulhava o fruto antes de cada dentada.
Subir ao ponto mais alto que houver por perto é, também, sempre, imprescindível. Se o vento obrigar, como foi o caso, ao encerramento da Sears Tower, o John Hancock Center é uma excelente alternativa para ver Chicago aos nossos pés e, no rés-do-chão, tem um enorme The Cheesecake Factory (upscale casual dining restaurant offering over 200 menu selections - diz a publicidade), naquele dia ensolarado cheio de famílias em passeio.
Na plana América que eu vi, onde até as montanhas entre o Nevada e a Califórnia se subiram e desceram com facilidade, não havia muito sítios onde subir. Mas vale bem a pena o Sandia Peaks, onde a mais de 3000 metros se tem uma vista fabulosa de Albuquerque e do Novo México até ao horizonte.
O Gateway Arch of Saint Louis tem no seu interior umas pequenas cabinas mal amanhadas, em fibra de vidro, onde cinco pessoas apertadas e curvadas podem subir até ao topo. A coisa é ligeiramente arrepiante: para acompanhar a curvatura do arco há, de vez em quando, um estremeção e um ranger de metal que não deixa ninguém muito à vontade. A pequena americana, de olhos ligeiramente esbugalhados, transmitindo um medo que os adultos guardavam para si, não parou em toda a viagem: Daddy, funny egg! Funny egg! Dias depois do regresso a Portugal li que o sistema tinha avariado e as pessoas ficaram lá fechadas durante duas horas. Não me surpreendeu mas não gostaria de ter passado pela experiência. Lá em cima, umas janelas raquíticas permitem ver toda a região de St. Louis e, em grande plano, o Busch Stadium, home of the Cardinals, àquela hora cheio de adeptos de baseball.
Há também que, cinefilamente, subir e descer Mulhohand Drive, embora a pequena colina onde está o Getty Center já seja suficiente para se ter uma belíssima vista panorânica sobre Los Angeles.
Em Hollywood há um stand ao ar livre, à beira da rua, cheio de Rolls-Royce em 2ª mão mas, apesar de eu conhecer várias pessoas que gostariam de ter na garagem um Rolls-Royce e nenhuma que lá quisesse ter uma limousine, parece que os nativos preferem as limousines. Limousines são americanices. Monumentos ao mau gosto que nós europeus instintivamente associamos a americano. Carros disformes, feios, conseguidos por mero corte, acrescento e soldagem de outros carros, cada uma mais aberrante que a outra. Via-as feitas de Hummer’s e de Ford Super Duty’s. São especialmente numerosas em Las Vegas. Imaginamo-las, todas, levando no seu interior estrelas de cinema, mafiosos ou cantores de rap. Algumas, talvez, jogadores afortunados. Certo é que uma delas transportava um bando de adolescentes barulhentos emergindo das janelas abertas. Uma das passageiras levantou por momentos a camisola e mostrou as mamas aos passantes. Já tinha visto a cena num filme. Parece-me que ela também.

2008-02-04

Motas. Carros e Camiões

(Route 66 - Notas de viagem III)
Os americanos movem-se. Há quem diga que são incapazes da andar mais de duzentos metros a pé, no que se parecem muito com os portugueses. Movem-se, preferencialmente de carro que o país é grande e a gasolina é barata (€ 0,65/litro). Desde Chicago já tínhamos reparado que agora andam de SUV. Enormes, quase todos, até ao exagero do Cadillac Escalade, grande como uma casa (403 cavalos, 6.2L, V8. Começa nos € 43.000). O pessoal mais fashion anda, como em Portugal, de Mini Cooper, de Volkswagen Beetle ou de Mercedes CLK. Das grandes banheiras americanas que agora são peças de museu nas margens da Route 66, sobram os Ford Crown da Yellow Cab que pintam de amarelo as ruas de New York. Mas, verdadeiramente, só quando sulcávamos um Mississipi barrento e caudaloso a bordo do Tom Sawyer, num passeio que vale a pena sobretudo pela espantosa beleza plástica do St. Louis Gateway Arch, alertados pelo ruído do comboio de mercadorias que foi crescendo, crescendo, até ocupar a totalidade da ponte enquanto os vagões continuavam a nascer da margem esquerda até lhe perdermos o conto, tomámos consciência de que por cá os meios de transportes são grandes, muito grandes. Cem vagões? Não pode ser! Eram mais.
O padrão havia de se repetir dali até Barstow, CA, as paisagens planas e calmas, torrando sob um sol inclemente de 102ºF, regularmente rasgadas por mais um comboio. O clímax é em Flagstaff, AZ, onde, dia e noite, a escassos minutos de intervalo, passa mais um: cento e vinte vagões, cada um com dois contentores (metade deles da China Shipping) sobrepostos, tudo puxado por quatro poderosas máquinas. Acho que vocês não estão a ver. É preciso ficar ali, junto à passagem de nível, durante mais de dois minutos que parecem não acabar, a sentir o chão tremer, a deslocação de ar, como vento forte a fustigar-nos a cara e aquele imenso ruído metálico a estalar-nos nos ouvidos. Às tantas, proibimo-nos de contar mais vagões.
Nas zonas rurais, impõem-se as pickups, inchadas também elas, à frente de todas a Ford Super Duty, rodado traseiro duplo, 2,4 metros de largura e 7 de comprimento e 300 cavalos e 8 cilindros num motor de 5,4 litros ( o Cadillac Escalade tem um motor maior. Os Hummer, que também são muitos, podem chegar aos 6,8 litros e aos 390 cavalos. É estúpido, não é?), uma amarração no centro da caixa, sobre o eixo traseiro, onde repousa um engate em forma de pescoço de ganso, arrastando um reboque longo adaptado às mais diversas utilizações: caravana, transporte de animais, de fardos de palha e das mercadorias mais diversas.
Os camiões são, talvez, mais de metade dos veículos que circulam nas Interstates que substituiram a velha Route 66. Uma caixa de carga de 51 pés de comprimento, puxada por um tractor que tem atrás da cabina uma assoalhada de 6m2. Não vi por dentro mas tenho pena e imagino: instalações sanitárias, cama e kitchenet. Acaba tudo numa caixa do motor que na pequena Europa, para poupar comprimento, há muito meteram debaixo dos pés do motorista.
As caravanas e autocaravanas (RV - recreation vehicles) afinam pelo mesmo diapasão. Cada uma delas do tamanho de duas das que estamos habituados a ver e uma curiosidade: rebocam, ligado por um tirante triangular para estabilizar a direcção, o carro da família.
Motas são Harley-Davidson, aqui a ali com uma Honda ou uma Suzuki intrometida, em grandes grupos à porta dos cafés e restaurantes das estradas secundárias, montadas por gigantes mal barbeados, em romagem pela Mother Road of América.
Tudo, carros, motas e camiões, circula às exactas 75 milhas por hora sob a vigilãncia atenta da polícia, estacionada na berma ou no separador central da Interstate, pronta a arrancar no encalço do primeiro prevaricador. Lembram-se de The Dukes of Hazzard?
Há dois sítios onde podemos aprender quase tudo sobre transportes na América: Santa Rosa, NM, é uma bomba de gasolina no deserto, a caminho de Santa Fé. Não vou explicar. Eu, nunca tinha visto nenhuma parecida nem, muito menos, tão grande. A Gay Pride de São Francisco é um enorme Carnaval em Junho: Centenas de Harleys abrem o desfile e seguem-se durante horas e quilómetros, carros, camiões, segways, bicicletas e patins e sapatos, que também muitos desfilaram a pé. Num pequeno largo, no entroncamento da Market Street com uma rua secundária, um gay tímido, volteia sobre os patins em linha, sonhando, em suaves volutas, com o principal papel feminino de um qualquer ballet clássico. Na avenida, lá para o fim do desfile uma avultada delegação da polícia, o carro patrulha de pirilampos ligados escoltado por enormes matulões devidamente fardados, as mãos dadas em enlevos discretos. Mais atrás, a delegação da Legião Americana, uma parte deles, talvez por já demasiados trôpegos, abarrotando um eléctrico. Os outros a pé, de fardas devidamente engomadas, o peito coberto de medalhas. Todos afirmando o seu orgulho gay, apenas divertindo-se ou, melhor seria, proclamando que cada um devia poder ser o que quer ser. Em qualquer caso, vistas as rugas, o andar titubeante, a curvatura das costas e calculada a concomitante idade, muitos, certamente, já não sexuais.

2008-01-13

Americanos

Vêm de Portugal? Deve ter sido uma viagem muito cara. Porque é que estão aqui? Acho que nunca cá vi um português. Estávamos em Oklahoma City, no Crossroad Mall (ou era no Penn Square?), na Lane Bryant, (the fashion leader in women’s plus-size clothing) e a curiosidade da vendedora era genuína e simpática. Ir à américa e não ver um Mall é como ir a Roma e não ver o Papa (o que aliás, já me aconteceu. De qualquer modo, já o vi o Papa a passar no Marquês de Pombal). Simpatia foi uma das grandes surpresas das férias: Vocês sabiam que os americanos são muito simpáticos e educados? Eu, confesso, não ía com muitas esperanças.
A jovem empregada de mesa em St. Louis: I never see the Ocean. Is not amazing? Por todo o lado: Portugal é na Europa, não é? Próximo de Espanha? Lá falam espanhol? Não, não falamos. Falamos português, like in Brazil. O Português é a quinta língua mais falada no Mundo, não sabia?
Em San Francisco, o Sr. de fato interrompeu a leitura do Financial Times e, logo que entramos no autocarro a conversar animadamente, colocou um largo sorriso e falando num português lento, com forte sotaque, mas muito bem construído: Estão a falar português, são de Portugal? Eu conheço Portugal. Conhece Minde? Tenho lá uns amigos: A Ana e o Jorge Pires. A conversa continuou animada até ao fim da viagem, o Sr. falando do Algarve e do Minho: Braga, conheço bem, já lá estive nas festas de São João! Sardines, I like very much. Ou o casal que percorria a Route em sentido inverso para visitar familiares na Costa Leste: I’m japanese... borned in San Francisco, dizia enquanto admirávamos, no parque de estacionamento do Motel, o camião que também tinha rodas de comboio para poder exercer a função de fiscalização das linhas. Engenheira informática de Silicon Valley, também não se lembrava de, antes, ter visto um protuguês.
Ou aquele outro viajante, junto ao Oklahoma Route 66 Museum, em Clinton, OK, a quem pedi para me deixar fotografar a sua extravagante Harley-Davidson e que levou a simpatia ao absurdo de afirmar que eu falo bem inglês!
Cuba, Mo, The Mural City, em Crawford County é uma cidadezinha que, passadas 85 milhas de St. Louis, se faz anunciar por uma enorme placa informativa na beira da Interstate 44: Visitors and Information Center: Portugueses? Nunca cá tive um português. Têm de assinar o meu livro. (livros de visitas é o que não falta ao longo da Route 66. Cheios de patriótica vaidade, deixámos os nossos nomes em alguns deles).
Os americanos são, pois, simpáticos. E gordos. Muito gordos. Exageradamente gordos. Parece, ao menos a acreditar nos anúncios no dorso dos autocarros que chamam a atenção para os perigos da gordura nas crianças que estão, finalmente, a tomar consciência desse facto. Chega a ser incomodativo: Ao terceiro dia de viagem, ainda em Chicago, fiz no meu caderno de apontamentos um tosco desenho, algo como um ovo com pernas, a que chamei “Chicaguense médio visto de costas”. Jovens mães com evidente obesidade mórbida. Motoristas de camião com braços mais grossos que as minhas pernas. Por todo o lado, para grande gaúdio dos fabricantes de cadeiras de rodas eléctricas, gente que já não conseguia arrastar o próprio peso e, até, SUV’s com gruas montadas na bagageira, para fazer subir e descer essas cadeiras.
Estes americanos não vivem, ao contrário do que se pode julgar, em arranha céus que, fora Manhattan, ou a Downtown de Chicago são pequenos aglomerados, em geral nos chamados Finantial District das maiores cidades. No mais, desde as quintas verdes do Illinois até à Califórnia, o que vemos é um país plano com poucas árvores e, quando há uma árvore, é certo que ao seu abrigo está uma casa de madeira, térrea, com um pequeno jardim, exactamente como a dos Simpson’s. Luxuosas em Beverly Hills. Compostinhas nos subúrbios de classe média. Práticas nas quintas, com arrecadações em volta e tractores no terreiro. Degradadas, sem ver pintura há longos anos, rodeadas de sucata e com roupa estendida ou já de janelas esventradas, em cidadezinhas decadentes.
Os americanos que eu vi são simpáticos, gordos e moram numas casinhas de madeira debaixo das árvores.

2007-12-26

Oklahoma City

Oklahoma City não ía referenciada como um dos “momentos” da viagem, pelo que o tempo programado tinha em mira mais o descanso que a cidade mas transformou-se num dia e meio cheio de curiosidades. Chegámos depois do almoço em Vinita, no former world’s largest McDonalds, um enorme arco dourado em ponte sobre a Interstate 44.
O Cattlemen’s Café está em Stockyards City há quase cem anos, a servir negociantes de gado, rancheiros e cowboys. Eis um bife que vale a pena, grande e alto, como por cá se não fazem, tenro, saboroso e fresco, acompanhado de salada e de uma deliciosa baked potato. Para a digestão passeia-se em volta, nas lojas especializadas em western wear and farm and ranch needs de onde se pode sair um cowboy de fazer esquecer o John Wayne.
Bricktown é um mega projecto de revitalização da downtown de OKC, umas docas inventadas pelo mayor, a troco de umas centenas de milhões de dólares, desenvolvendo-se em redor de um bonito canal onde se passeia de water taxi e onde ao fim da tarde os mosquitos não perdoam. À custa da comichão que a Lena teve de suportar nessa noite, no dia seguinte e por mais uma noite, descobrimos em Tucumcari (NM) uma realidade americana: Há aqui uma farmácia de serviço?, perguntámos ao jantar. Bem, vocês vão para Este ou para Oeste? É que para Este a farmácia de serviço mais próxima é a cerca de 100 milhas, para Oeste, a 160 milhas. Aqui há uma mas abre amanhã às 8H30. De facto abriu e a pomada fornecida resultou em pleno.
De volta à Bricktown: Toby Keith's I Love This Bar and Grille. América em estado puro. Um balcão onde dezenas de bebedores de cerveja conversam ao fim da tarde, mesas espaçosas e bem aparelhadas (sem toalha. Os americanos não usam toalhas), comida de muito bom aspecto e, ao que me dizem, de sabor condizente. Eu que nestas coisas sou muito conservador, optei por mais um bife. Quase tão bom como o do Cattlemen's. Há espaço para dançar frente ao palco onde as bandas convidadas tocam country music, que o Toby Keith é uma estrela e àquela hora actuava em Las Vegas. Nas paredes, guitarras decoradas com a stars and strips, harley’s, frentes de cadillac’s antigos e um écran que projecta imagens do patrão. Compro um CD? Confesso os limites da minha tolerância ideológica. O vídeo e as letras não deixam dúvidas. O homem (chapéu de cowboy, calça de ganga e tshirt muito justa sobre a qual brilha uma enorme cruz a realçar a musculatura) tem uma ementa especial para soldados e apoia todas as acções militares americanas no estrangeiro, porque sim. Não lhe fará diferença mas vai ter que vender o CD a outro.
O hall de entrada do National Cowboy and Western Heritage Museum é dominado pela famous 18-feet escultura The end of trail, de James Earle Fraser, representação ambígua da derrota das nações índias e passa-se a uma galeria onde se vende a arte do imaginário cowboy: esculturas de pôr nos móveis ou nos cantos da sala, sempre no mesmo registo minucioso e naturalista e pinturas tal qual que em Portugal já só se vêem em lojas de decoração vocacionadas para ricos recentes. E essa coisa assombrosa que é o cinema como fonte primária da história. Will Rogers, aliás, não deixará de nos acompanhar desde que o encontrámos pela primeira vez, no Mcdonalds de Vinita, até Santa Mónica e San Francisco.
Mas no Art Institute de Chicago a abarrotar de gente vi esse espanto que é o American Gothic – Grant Wood, 1930 -, acolitado por Picasso, Kandinsky, Magrite, Matisse, Warhol, O’Keefe, Pollack e Nauman e, no Getty de LA, vi Defining Modernity: European Drawings, 1800-1900.
O MoCa não me convenceu e o Gehry do Disney e do Millenium Park, continua sem me convencer. A arquitectura há-de ser mais que um revestimento ondulado de escamas de aço polido. O MoMa tem o Starry Night e o Rapaz com Cavalo e Les demoiselles d’Avignon e, naquelas horas de entradas gratuitas, tanta gente por metro quadrado como o nosso Metro em hora de ponta e, ao lado, a pista de gelo que já vimos nos filmes era uma esplanada bem apropriada ao calor de New York. Como é que tudo parece tão grande visto no écran? Como é que o Kodak Theater tem tanto glamour em noite de óscares se o Blvd Hollywood parece a Almirante Reis? Ah!, e o passeio da fama! Quando damos por ele já pisamos, pelo menos, três das nossas actrizes favoritas.
E já que aqui estamos voltemos aos bifes que também são óptimos no Sladder Saloon em Sunset Plaza, cheio de jovens adultos barulhentos que festejam um aniversário bebendo cerveja numa roda ao balcão, de onde às vezes um sai para testar equilíbrios no touro mecânico.
De sem-abrigos em Hollywood, da imensidão do Novo México e do Arizona, do Grand Canyon, de cidadezinhas de madeira, de camiões e comboios, do parque infantil para adultos conhecido por Las Vegas, de hamburgers, cheeseburgers e cheesecakes, de fat boys, de Times Square e Rodeo Dr, da simpatia e curiosidade dos americanos e do mais que a lembrança o permitir, falaremos noutra altura.

(Texto também disponível em http://sputnik-webzine.blogspot.com/, incluindo uma english version)

2007-09-19

Código do Processo Penal

Não adiantará muito à felicidade da Patria haver mais uma voz (aliás dissonante do alarido geral) a pronunciar-se sobre a reforma penal e, em particular sobre as novas regras de prisão preventiva. Mas li duas no Diário de Notícias que não resito a comentar:

1. Segundo o venerando jornal, o Sr. Dr. Cluny terá dito que é grave soltarem-se criminosos. Foi o jornal que não entendeu o Sr. Dr., foi o Sr. Dr. que se enganou ou, sou eu que não percebo nada disto?
É que no meu tempo, quem estava preso preventivo era, por definição, presumidamente inocente.
2. O mesmo venerando jornal conta a história de um criminoso (lá se foi, mais uma vez, a presunção de inocência) que foi libertado devido ao atrazo na apreciação de um recurso decorrente da doença do Conselheiro a quem estava distribuído.
Será que alguém de bom senso considera justo que um homem fique preso apenas porque outro está doente?

2007-06-05

OTA

Deitei-me passava das 2 da manhã, como fez quem quiz acompanhar o prós e contras sobre a Ota.
Desconfio que a enorme maioria dos portugueses foi dormir muito antes disso.
A consequência é que todos ficarão como dantes, cada um acantonado nas posições que já tinha.
Em boa verdade, não perderam grande coisa: Talvez, apenas, em termos de espectáculo televisivo, as descabeladas intervenções do Sr. Prof. Nunes da Silva que deliberadamente abandonou a postura que se esperava de um eminente cientista (em Portugal todos os professores universitários são eminências científicas, apesar de os resultados não o comprovarem) para adoptar um tom arrogante e comicieiro que melhor ficaria ao Dr. Marques Mendes.
Marques Mendes que (Eduardo Catroga dixit) fez mal em fazer da Ota um problema político.
Eduardo Catroga, por sua vez veio, assumir a posição oficial do PSD de que é preciso estudar. Ora, convém lembrar que este Sr. foi Ministro das Finanças até há menos de 12 anos: O que é que estudou então, ou mandou estudar? Nada. E nada, provavelmente porque nesse tempo uma carrada de iminências (José Gabriel Viegas incluído) achava que, com uns ajustes, a Portela seria eterna.
Ora, se estes senhores fossem coerentes, tendo chegado ontem publicamente à conclusão de que a Portela não chega, deveriam reconher que uma parte grande (a grande parte) da culpa é sua.
As contas são simples de fazer:
a) Se a Portela esgota em 2010-2012;
b) Se um aeroporto demora 7-10 anos a fazer;
c) Se os estudos que agora querem fazer em seis meses ou um ano (é falso: se houver, como deve haver, concursos, mais de seis meses demorará o processo de adjudicação) demoram em condições normais cerca de 3 anos.
A conclusão é que 1995 teria sido uma boa data para iniciar com calma os estudos que agora agitadamente reclamam.
Mas talvez a guerra de "interesses" não seja entre os resorts do litoral alentejano e os resorts do Oeste. Talvez isso seja, apenas, areia para os olhos do maralhal. Talvez os anti-Ota (e a favor de nada, como fazem questão de repetir) estejam apenas a tentar conseguir que se não faça nenhum aeroporto.
Teoria da conspiração? Não, não sou adepto, muito embora as conspirações tenham tendência a parecer-se com as bruxas (que as há, há).
Vejamos:
Parece consensual que vamos ter de, lá para 2010-2012, operacionalizar um segundo aeroporto que seja capaz de complementar a Portela enquanto o novo não está feito.
É da minha vista ou há quem esteja apostado - e não o diz - em eternizar essa solução Portela+1? Quanto custará essa solução?
Interesses todos os temos. Não podemos, por isso, acreditar em Eduardo Catroga quando, candidamente, vem propor que estes assuntos sejam estudados "por uma espécie de sábios" desinteressados, competentes e honestos. Os jornais dizem-nos todos os dias que o povo desconfia dos políticos. Eu prefiro desconfiar dos políticos que me querem convencer que não são políticos.
Declaração de interesses:
O meu interesse pessoal na questão do aeroporto resulta do facto de que, residindo há mais de trinta anos a menos de cinco euros de distância da Portela, estou farto de aturar más educações de taxistas.
Ponham-me o aeroporto mais longe s.f.f.

CGTP

A coisa é pior do que parecia.
Gerónimo de Sousa fala como se fosse dono dos trabalhadores em geral e da GCTP em particular.
Carvalho da Silva parece cada vez mais próximo de me fazer a vontade e deixar o governo da CGTP.
As alternativas, a crer nos jornais, são Mário Nogueira, ex-mandatário da candidatura de Gerónimo de Sousa à Presidência da República (conheço-o de reuniões no Ministério da Educação para discussão do Estatuto da Carreira Docente, já lá vão uns catorze anos, durante os quais todas as lutas de professores encabeçadas pela Fenprof foram, pela simples razão de que não tinham razão, sendo perdidas uma a uma) e um outro nome - para mim absolutamente obscuro - que a imprensa diz pertencer à linha dura do PCP.
São estas as alternativas para o sindicalismo português.
Pobre sindicalismo.

2007-05-30

GREVE

No telejornal Carvalho da Silva gagueja explicações sobre a grande greve que, agora, já não é geral mas nacional.
A minha solidariedade ao Carvalho da Silva; ficou claro pelo modo como gaguejou que sempre é verdade que a greve foi para a frente por imposição do comité central e contra a sua própria opinião.
A arrrogãncia com que antes a CGTP atirava números de adesão foi desta vez substituída pela enumeração de exemplos, nunca concretizados, de empresas totalmente paralizados e pelo número de escolas que não deram aulas. Neste último ponto terá Carvalho da Silva razão. Mas talvez interessasse saber quantas dessas escolas pararam apenas porque um ou dois auxiliares fizeram greve.
Meu caro Carvalho da Silva: Tal como você também eu fiz greve uma vez na vida (talvez ainda um dia aqui escreva algumas linhas sobre isso). Tal como você também já me vi forçado a fazer fretes mas, (vantagem de não ser dirigente da CGTP), nunca me vi na televisão a fazer a triste figura que V.Ex.a hoje fez.
Você parece-me uma pessoa inteligente.
É por isso que me custa vê-lo encabeçando a gloriosa marcha da CGTP, de vitória em vitória, até à derrota final.
Derrota que, a acontecer, será infelizmente, também, dos trabalhadores e do sindicalismo. É o que talvez a CGTP acabe por conseguir. Mas não tem o direito de o conseguir.
Façam-nos todos um favor, o Carvalho da Silva e os demais dirigentes da CGTP (e muitos da UGT) que já não se lembram de quando foi a última vez que trabalharam ao lado daqueles que dizem representar: Reformem-se, deêm lugar aos novos.
Devia ser proibido chamar dinossauro a qualquer autarca enquanto V.Ex.as não abandonarem as cadeiras do sindicalismo.

2007-03-12

As nomeações de Sócrates


Já sabíamos que os números fazem a delícia dos jornalistas.
Hoje, o DN tem como tema de capa a notícia de que Sócrates fez 2373 nomeações em dois anos.
A primeira questão a resolver seria a de saber se são muitos ou poucos - mas isso ao jornalista já não interessa.
Pelo meio, seria interessante saber quantas daquelas nomeações são reconduções e, ou, mero preenchimento de lugares que nenhum de nós quer ver vagos e a Lei diz que são preenchidos por nomeação.
Mais interessante, ainda, seria saber se devemos usar outro método que não as nomeações para o preenchimento daqueles lugares.

2007-03-08

Direitos humanos

Com a sua habitual prosápia, os EUA publicaram o costumeiro relatório anual do Departamento de Estado sobre direitos humanos.
O Ministro António Costa - coerentemente com a decisão que tomou, quando Ministro da Justiça, de negar à embaixada americana em Lisboa o direito a inspeccionar as prisões portuguesas enquanto ao embaixador português nos EUA não fosse dado o direito de inspeccionar as prisões americanas - respondeu à letra e seria bom que todos atentassemos na justeza do que disse.
AC não reconhece legitimidade à Administração Americana para se pronunciar sobre a polícia portuguesa, nem reconhece nenhum pergaminho especial aos EUA que os habilite a teorizar sobre a forma como a polícia portuguesa actua, em especial, digo eu, quando vamos sabendo como actua a polícia americana (e o exército - Guantanamo, lembram-se?).
A embaixada americana em Lisboa respondeu às críticas do governo português citando a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que responsabiliza todos os indivíduos e organismos pela promoção e respeito dos direitos humanos no mundo, e afirma que os EUA vão continuar a instar outros países a fazerem o mesmo e a manifestar a sua preocupação com os respectivos registos em matéria de direitos humanos.
Sem dúvida. É bom que os EUA o façam. O mundo precisa disso. Mas seria bom que os EUA fizessem um esforço para que todos tenhamos razões para continuar a olhá-los como um farol da democracia e dos direitos humanos.
É bom que os EUA continuem a, como disse o seu embaixador em Lisboa, trabalhar diligentemente para resolver os seus próprios problemas e não vejo que não devam continuar a manifestar a sua preocupação pelos atropelos dos direitos humanos no mundo.
Mas também seria bom que fossem coerentes e respeitadores das soberanias alheias ou, pelo menos, que se esforçassem para nos convencer que os seus princípios e preocupações não oscilam ao ritmo da cotação do barril do petróleo.

2007-03-01

João Lourenço Quitério

Ataíja de Cima
30-04-1922
27-02-2007

2007-02-24

Cara lavada

O Fado tem uma nova cara!
Aproveitei o upgrade para a nova versão do blogger para actualizar um pouco a imagem e as funcionalidades. Agora já é possível deixar um comentário, criar links para nós a partir do seu blog ou enviar os nossos textos a um amigo por email.
O grafismo ainda está pouco personalizado mas vou melhorar isso em breve, espero que gostem.

2006-12-29

Reguladores

Face a alguma polémica levantada pela demissão do presidente da ERSE (que propunha, recordemos, um aumento do preço da electricidade doméstica obviamente inaceitável por este ou por qualquer outro governo) o PSD sugeriu, esta quinta-feira, que seja criado um novo modelo de nomeação dos conselhos de administração das entidades reguladoras, onde a última palavra deve ser sempre do Presidente da República.
De acordo com o modelo proposto, «o Governo faria a proposta das pessoas a designar», que posteriormente «seriam ouvidas na Assembleia da República», através de uma comissão especializada, explicou à TSF Luís Pais Antunes.«Tendo em conta o resultado da audição, o Presidente da República tomaria a decisão», como acontece actualmente na nomeação do Governador do Banco de Portugal, acrescentou o vice-presidente do PSD.
Os sociais-democratas pretendem que esta medida sirva para evitar «manipulações politicas» na nomeação destes cargos e desenvolver um caminho mais democrático e respeitador do equilíbrio de poderes.

Há nesta notícia amplo espaço para reflecções consequentes:
a) porque é que chegamos a esta situação, em que o aumento economicamente “correcto” ultrapassaria os 16%?
b) Quem é que se esqueceu de aumentar quando devia?
c) Como é que se explica a necessidade de um aumento superior a 16% quando as empresas do sector continuam a dar lucros substanciais?
d) Porque é que em anos anteriores o Eng.º Vasconcelos nunca sentiu a necessidade de propor tais aumentos ou de se demitir?

Há nesta notícia espaço para interrogações pertinentes, sobre o vazio ideológico que submerge o PSD:
a) o evitar “manipulações políticas” leva-nos a um “caminho mais democrático”?
b) o envolver o Presidente da República na política de preços administrativamente fixados é da natureza da social-democracia? Mais;
c) Tal caminho é coerente com o sistema constitucional de separação de poderes?
d) Não seria mais lógico que as entidades reguladoras fossem nomeadas pela AR?

Estas coisas preocupam-me porque, não fazendo eu a mínima intenção de votar PSD nos tempos mais próximos, não descarto, por uma simples questão de bom-senso, a hipótese de um dia destes (um ano destes, melhor dizendo) ter de, democraticamente, ser governado por um governo PSD.

Nessa altura convinha-me que fosse um PSD responsável.
Que do outro já tive a minha dose.

2006-12-28

Sem título (por pudor)

Broche era, no meu tempo, um adorno que as senhoras usavam ao peito. Segundo o Dicionário Prático Ilustrado ( que não tem, aliás, nenhuma ilustração da coisa), trata-se de um fecho de metal ou jóia munida de um grosso alfinete. Ou, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, 8ª Edição, da Porto Editora, 1986,de um adereço em forma de fecho com que as mulheres prendem qualquer peça de vestuário junto ao pescoço.

Entretanto, as modas passaram e as mulheres deixaram-se dos broches.

Ao mesmo tempo o sentido da palavra metamorfoseou-se e hoje não pode ser pronunciada, salvo num grupo de machos, em contexto de anedota porca e em ambiente ligeiramente alcoolizado.

Vem isto a propósito de que, tendo eu passado o Natal num local que além de outras maravilhas tem essa de que quem quer o jornal tem de o ir buscar a mais de oito quilómetros de distância, regressado à cidade e ao hábito de começar o dia comprando o PÚBLICO (o hábito, quando desprovido de razão, chama-se vício) deparo com a preciosa notícia – ilustrada com fotografia do personagem – de que Mónica Lewinsky acabou de se pós-graduar em Psicologia em Londres. A notícia esclarecia que a senhora ficou famosa por ter mantido um caso com o ex-presidente americano Bill Clinton.

Obrigado José Manuel Fernandes!

Que seria de mim na ignorância de tal facto?

São estas e outras que fazem do PÚBLICO um grande jornal. São estas e outras que me fazem pensar porque é continuo a gastar dinheiro convosco.

Ah!, deixe-me acrescentar: V.Ex.a está a esmerar-se. Hoje a última página do PÚBLICO é dedicada, por inteiro, ao sexo à americana.

Muito obrigado.

O "passeio" dos militares, as consequências disciplinares e os posts reaccionários

Não sou militar.
Cumpri o serviço militar, entre 1969 e 1972, os dois últimos anos passados na Guiné.
Dói-me ver o nível da discussão em que os militares se deixaram envolver.
Dói-me o arrazoado estúpido que leva alguns a dizer que este Governo éilegítimo.
A Instituição Militar portuguesa não tem, no Século XX, uma História de que se possa orgulhar por aí além. Também não é grave. As instituições existem para além das pessoas mas apenas dentro de certos limites.
E a verdade é que os militares, a par dos juízes, dos padres e de mais uns quantos foram, durante décadas, os mais fiéis esteios do Salazarismo.
A brigada do reumático. Lembram-se?
Em matéria de liberdade estamos conversados.
Têm os militares algumas razões de queixa como eu, funcionário público, as tenho.
Mas esperava deles mais aprumo.
O "passeio" envergonha os militares.
A maioria dos posts que estão no blog http://soumilitar.blogs.sapo.pt/ associado à notícia de hoje, esses não envergonham os militares. Só os autores.

2006-12-20

Burocracias

Há largos anos estive profundamente envolvido na realização de um concurso de admissão de pessoal para a função pública com mais de 40.000 candidatos, o maior concurso de provimento realizado até àquela data.
Sendo os lugares disponíveis muito menos que os candidatos e estando fresca a publicação do Código do Procedimento Administrativo, as reclamações e os recursos foram, naturalmente, mais que muitos. Controladas essas reclamações e recursos, em termos que, agora, não interessa explanar mas a imprensa da época reflecte, o concurso lá foi andando até ao fim e ao Visto do Tribunal de Contas.
Não contente com a documentação que lhe havia sido enviada, o Tribunal de Contas oficiou a solicitar o envio de “todo o processo do concurso”. Foi-lhe respondido que o processo ocupava mais de quatrocentas pastas de arquivo pelo que, face a tal volume e à necessidade de alugar uma camioneta para fazer o transporte, se solicitava fosse indicada a data, hora e local onde a entrega poderia ser feita.
Até hoje, que eu saiba, tal ofício nunca teve resposta.
Estava esta história quase esquecida quando dou, neste ano de graça de 2006, pelo pedido do mesmo Tribunal de Contas para que lhe seja enviada, no âmbito de um processo de Visto, fotocópia autenticada de um processo de concurso de pessoal que ocupa mais de 120 pastas de arquivo, seja, números redondos, seguramente mais de 50.000 folhas, de tamanhos diversos (pelo menos A3 e A4), muitas com frente e verso, em papeis de diversas gramagens e texturas.
Tais fotocópias hão-de, naturalmente, ser, em todas as páginas escritas, carimbadas com a certificação de conformidade com o original, devidamente assinada e autenticada com selo branco e, furadas e metidas em outras tantas cento e vinte e tal pastas de arquivo.
Há-de, a seu tempo, ser resolvido o como, quando e onde serão entregues.
Admitindo que uma máquina fotocopiadora de razoável rendimento consegue, no caso, uma produtividade média de 20 cópias por minuto, teremos como tempo de trabalho de máquina de cerca de 7 dias úteis,
De papel, serão cerca de € 260,00.
De pastas de arquivo, cerca de €210,00.
O tempo e os respectivos custos, dos funcionários que hão-de (50.000 vezes) fotocopiar, carimbar, assinar, selar, furar,arquivar e transportar tal massa de papel, mais o custo do toner de impressora e da viatura de transporte, serão calculados por quem tiver mais tempo e paciência que eu próprio.

Havia necessidade?

2006-12-12

Corrupções

Um novo parecer junto ao processo Apito Dourado defende que um certo fulano, não pode ser acusado de crimes de corrupção passiva porque o cargo que ocupava não é equiparável ao de funcionário público, requisito fundamental daquele ilícito.
Agora se percebe a fúria anti-corrupção de alguns palradores.
Não os atinge.
Todas as tramóias são possíveis porque, não sendo funcionários públicos, por definição não são corruptos.
Interessa pouco ao caso que as suas trampolinices afectem a vida pública com uma intensidade absolutamente fora do alcance da maioria dos funcionários.
Interessa pouco que vivam, todos eles, de um modo ou outro, à conta do orçamento.
Não tomaram posse e isso basta para continuarem livres como pássaros.
Seria risível se não fosse triste.
Mas, na verdade, sempre foi assim.
As leis penais sempre andaram um passo atrás dos criminosos.

2006-12-07

TLEBS

A terminologia linguística para os ensinos básico e secundário é o tema da polémica em curso.
Cheira-me, à luz da experiência, que também esta é uma polémica inútil. Seja, vai ficar tudo na mesma como se não tivesse existido qualquer polémica. Mas é, apenas um feeling (feeling? esta não está, espero, na TLEBS) fruto, talvez, do meu reconhecido mau feitio.
Seja como for, não quero entrar na polémica. No meu tempo havia orações que foram, naquela época, capazes de matar qualquer hipótese de amor da generalidade dos estudantes pela literatura portuguesa. Sem conhecer (o que conheço – dos jornais – é suficiente para me convencar que se trata de coisa com que não quero lidar), aposto que a TLEBS não conseguirá fazer pior.
O problema não é a TLEBS. O problema é um sistema de ensino que ninguém – a não ser alguns dos que dele vivem – compreende ou respeita.
Veja-se o exemplo de uma amiga, mãe de uma criança de dez anos a frequentar o quinto ano de escolaridade:
Ontem a criança apareceu espavorida em casa, dizendo que a professora exigia que hoje chegasse à escola com um livro de receitas tirado da internet.
Parece que o exercício tinha por objectivo exercitar as competências de pesquisa online, transferência e impressão de ficheiros, incluindo fotografias, formatação de textos, com negritos, sublinhados e mais não sei o quê.
Resultado, para aplacar o stress em que a filha notoriamente vive , chegada a casa tarde e más horas (é verdade, há funcionários públicos que trabalham, sem remuneração, muitas horas extraordinárias) a minha amiga decidiu ajudar e, passada a meia-noite, lá estava o livro de receitas tirado da internet concluído.
Levantar cedo, preparar a filha para apanhar a carrinha do colégio (sim, Sr. Prof. Mário Pinto. Trata-se de um colégio privado), até que, na hora do beijo à porta, a criança dispara: Mãe! Não temos bebidas!
Enquanto a filha descia com o pai, a minha amiga fez mais uma correria para o computador, pesquisou, encontrou e imprimiu uma sangria e desceu, sempre a correr, ainda em pijama e meias, até à carrinha que já esperava.
Pergunta simples de um ignorante destas coisas: Não bastaria pedir-se uma receita a cada aluno e juntar tudo, devidamente corrigido na sala de aula, para formar um livro de receitas da turma?

2006-11-14

Greves e Verdades

Nos últimos episódios (até à data), de um ping-pong que começou na manhã do dia da greve, o Diário de Notícias publicou ontem uma notícia segundo a qual, muitos trabalhadores optaram por meter baixa no dia de greve, facto que justificará, em parte as divergências entre Governo e Sindicatos na contagem dos grevistas.
A CGTP reagiu com acusações ao Governo de manipulação da informação.
Ora, esta questão de saber qual a efectiva adesão a uma greve é matéria que não pode deixar de interessar a todos. Ao Governo, porque lhe convém ter um indicador fiável do descontentamento. Aos sindicatos porque, igualmente, lhes convém possuir um indicador fiável da adequação das suas políticas aos interesses dos seus associados.
Estou a ser ingénuo? Parece que sim, uma vez que todos, Sindicatos e Governo, parecem, antes, apostados em esconder a realidade.
Mas, ainda que assim seja e, sobretudo, se assim for, eu, cidadão, tenho o direito de conhecer a verdade.
E, quando os números do Estado se ficam por pouco mais de 10% e os dos Sindicatos apontam para os 80% de adesão, então alguém está a mentir (ou ambos) e, eu, cidadão, tenho o direito de que não me mintam.
Acabem, por isso, com estas picardias.
A greve é um direito e tem uma consequência: o não pagamento do vencimento correspondente.
Nada mais simples, portanto: veja-se, no fim do mês, quantos funcionários sofreram desconto de vencimento no dia da greve. Esse é o número máximo, possível de aderentes à greve.
Deixem-se de picardias e falem-nos verdade.