Vêm de Portugal? Deve ter sido uma viagem muito cara. Porque é que estão aqui? Acho que nunca cá vi um português. Estávamos em Oklahoma City, no Crossroad Mall (ou era no Penn Square?), na Lane Bryant, (the fashion leader in women’s plus-size clothing) e a curiosidade da vendedora era genuína e simpática. Ir à américa e não ver um Mall é como ir a Roma e não ver o Papa (o que aliás, já me aconteceu. De qualquer modo, já o vi o Papa a passar no Marquês de Pombal). Simpatia foi uma das grandes surpresas das férias: Vocês sabiam que os americanos são muito simpáticos e educados? Eu, confesso, não ía com muitas esperanças.
A jovem empregada de mesa em St. Louis: I never see the Ocean. Is not amazing? Por todo o lado: Portugal é na Europa, não é? Próximo de Espanha? Lá falam espanhol? Não, não falamos. Falamos português, like in Brazil. O Português é a quinta língua mais falada no Mundo, não sabia?
Em San Francisco, o Sr. de fato interrompeu a leitura do Financial Times e, logo que entramos no autocarro a conversar animadamente, colocou um largo sorriso e falando num português lento, com forte sotaque, mas muito bem construído: Estão a falar português, são de Portugal? Eu conheço Portugal. Conhece Minde? Tenho lá uns amigos: A Ana e o Jorge Pires. A conversa continuou animada até ao fim da viagem, o Sr. falando do Algarve e do Minho: Braga, conheço bem, já lá estive nas festas de São João! Sardines, I like very much. Ou o casal que percorria a Route em sentido inverso para visitar familiares na Costa Leste: I’m japanese... borned in San Francisco, dizia enquanto admirávamos, no parque de estacionamento do Motel, o camião que também tinha rodas de comboio para poder exercer a função de fiscalização das linhas. Engenheira informática de Silicon Valley, também não se lembrava de, antes, ter visto um protuguês.
Ou aquele outro viajante, junto ao Oklahoma Route 66 Museum, em Clinton, OK, a quem pedi para me deixar fotografar a sua extravagante Harley-Davidson e que levou a simpatia ao absurdo de afirmar que eu falo bem inglês!
Cuba, Mo, The Mural City, em Crawford County é uma cidadezinha que, passadas 85 milhas de St. Louis, se faz anunciar por uma enorme placa informativa na beira da Interstate 44: Visitors and Information Center: Portugueses? Nunca cá tive um português. Têm de assinar o meu livro. (livros de visitas é o que não falta ao longo da Route 66. Cheios de patriótica vaidade, deixámos os nossos nomes em alguns deles).
Os americanos são, pois, simpáticos. E gordos. Muito gordos. Exageradamente gordos. Parece, ao menos a acreditar nos anúncios no dorso dos autocarros que chamam a atenção para os perigos da gordura nas crianças que estão, finalmente, a tomar consciência desse facto. Chega a ser incomodativo: Ao terceiro dia de viagem, ainda em Chicago, fiz no meu caderno de apontamentos um tosco desenho, algo como um ovo com pernas, a que chamei “Chicaguense médio visto de costas”. Jovens mães com evidente obesidade mórbida. Motoristas de camião com braços mais grossos que as minhas pernas. Por todo o lado, para grande gaúdio dos fabricantes de cadeiras de rodas eléctricas, gente que já não conseguia arrastar o próprio peso e, até, SUV’s com gruas montadas na bagageira, para fazer subir e descer essas cadeiras.
Estes americanos não vivem, ao contrário do que se pode julgar, em arranha céus que, fora Manhattan, ou a Downtown de Chicago são pequenos aglomerados, em geral nos chamados Finantial District das maiores cidades. No mais, desde as quintas verdes do Illinois até à Califórnia, o que vemos é um país plano com poucas árvores e, quando há uma árvore, é certo que ao seu abrigo está uma casa de madeira, térrea, com um pequeno jardim, exactamente como a dos Simpson’s. Luxuosas em Beverly Hills. Compostinhas nos subúrbios de classe média. Práticas nas quintas, com arrecadações em volta e tractores no terreiro. Degradadas, sem ver pintura há longos anos, rodeadas de sucata e com roupa estendida ou já de janelas esventradas, em cidadezinhas decadentes.
Os americanos que eu vi são simpáticos, gordos e moram numas casinhas de madeira debaixo das árvores.
2008-01-13
2007-12-26
Oklahoma City
Oklahoma City não ía referenciada como um dos “momentos” da viagem, pelo que o tempo programado tinha em mira mais o descanso que a cidade mas transformou-se num dia e meio cheio de curiosidades. Chegámos depois do almoço em Vinita, no former world’s largest McDonalds, um enorme arco dourado em ponte sobre a Interstate 44.
O Cattlemen’s Café está em Stockyards City há quase cem anos, a servir negociantes de gado, rancheiros e cowboys. Eis um bife que vale a pena, grande e alto, como por cá se não fazem, tenro, saboroso e fresco, acompanhado de salada e de uma deliciosa baked potato. Para a digestão passeia-se em volta, nas lojas especializadas em western wear and farm and ranch needs de onde se pode sair um cowboy de fazer esquecer o John Wayne.
Bricktown é um mega projecto de revitalização da downtown de OKC, umas docas inventadas pelo mayor, a troco de umas centenas de milhões de dólares, desenvolvendo-se em redor de um bonito canal onde se passeia de water taxi e onde ao fim da tarde os mosquitos não perdoam. À custa da comichão que a Lena teve de suportar nessa noite, no dia seguinte e por mais uma noite, descobrimos em Tucumcari (NM) uma realidade americana: Há aqui uma farmácia de serviço?, perguntámos ao jantar. Bem, vocês vão para Este ou para Oeste? É que para Este a farmácia de serviço mais próxima é a cerca de 100 milhas, para Oeste, a 160 milhas. Aqui há uma mas abre amanhã às 8H30. De facto abriu e a pomada fornecida resultou em pleno.
De volta à Bricktown: Toby Keith's I Love This Bar and Grille. América em estado puro. Um balcão onde dezenas de bebedores de cerveja conversam ao fim da tarde, mesas espaçosas e bem aparelhadas (sem toalha. Os americanos não usam toalhas), comida de muito bom aspecto e, ao que me dizem, de sabor condizente. Eu que nestas coisas sou muito conservador, optei por mais um bife. Quase tão bom como o do Cattlemen's. Há espaço para dançar frente ao palco onde as bandas convidadas tocam country music, que o Toby Keith é uma estrela e àquela hora actuava em Las Vegas. Nas paredes, guitarras decoradas com a stars and strips, harley’s, frentes de cadillac’s antigos e um écran que projecta imagens do patrão. Compro um CD? Confesso os limites da minha tolerância ideológica. O vídeo e as letras não deixam dúvidas. O homem (chapéu de cowboy, calça de ganga e tshirt muito justa sobre a qual brilha uma enorme cruz a realçar a musculatura) tem uma ementa especial para soldados e apoia todas as acções militares americanas no estrangeiro, porque sim. Não lhe fará diferença mas vai ter que vender o CD a outro.
O hall de entrada do National Cowboy and Western Heritage Museum é dominado pela famous 18-feet escultura The end of trail, de James Earle Fraser, representação ambígua da derrota das nações índias e passa-se a uma galeria onde se vende a arte do imaginário cowboy: esculturas de pôr nos móveis ou nos cantos da sala, sempre no mesmo registo minucioso e naturalista e pinturas tal qual que em Portugal já só se vêem em lojas de decoração vocacionadas para ricos recentes. E essa coisa assombrosa que é o cinema como fonte primária da história. Will Rogers, aliás, não deixará de nos acompanhar desde que o encontrámos pela primeira vez, no Mcdonalds de Vinita, até Santa Mónica e San Francisco.
Mas no Art Institute de Chicago a abarrotar de gente vi esse espanto que é o American Gothic – Grant Wood, 1930 -, acolitado por Picasso, Kandinsky, Magrite, Matisse, Warhol, O’Keefe, Pollack e Nauman e, no Getty de LA, vi Defining Modernity: European Drawings, 1800-1900.
O MoCa não me convenceu e o Gehry do Disney e do Millenium Park, continua sem me convencer. A arquitectura há-de ser mais que um revestimento ondulado de escamas de aço polido. O MoMa tem o Starry Night e o Rapaz com Cavalo e Les demoiselles d’Avignon e, naquelas horas de entradas gratuitas, tanta gente por metro quadrado como o nosso Metro em hora de ponta e, ao lado, a pista de gelo que já vimos nos filmes era uma esplanada bem apropriada ao calor de New York. Como é que tudo parece tão grande visto no écran? Como é que o Kodak Theater tem tanto glamour em noite de óscares se o Blvd Hollywood parece a Almirante Reis? Ah!, e o passeio da fama! Quando damos por ele já pisamos, pelo menos, três das nossas actrizes favoritas.
E já que aqui estamos voltemos aos bifes que também são óptimos no Sladder Saloon em Sunset Plaza, cheio de jovens adultos barulhentos que festejam um aniversário bebendo cerveja numa roda ao balcão, de onde às vezes um sai para testar equilíbrios no touro mecânico.
De sem-abrigos em Hollywood, da imensidão do Novo México e do Arizona, do Grand Canyon, de cidadezinhas de madeira, de camiões e comboios, do parque infantil para adultos conhecido por Las Vegas, de hamburgers, cheeseburgers e cheesecakes, de fat boys, de Times Square e Rodeo Dr, da simpatia e curiosidade dos americanos e do mais que a lembrança o permitir, falaremos noutra altura.
2007-09-19
Código do Processo Penal
Não adiantará muito à felicidade da Patria haver mais uma voz (aliás dissonante do alarido geral) a pronunciar-se sobre a reforma penal e, em particular sobre as novas regras de prisão preventiva. Mas li duas no Diário de Notícias que não resito a comentar:
1. Segundo o venerando jornal, o Sr. Dr. Cluny terá dito que é grave soltarem-se criminosos. Foi o jornal que não entendeu o Sr. Dr., foi o Sr. Dr. que se enganou ou, sou eu que não percebo nada disto?
É que no meu tempo, quem estava preso preventivo era, por definição, presumidamente inocente.
2. O mesmo venerando jornal conta a história de um criminoso (lá se foi, mais uma vez, a presunção de inocência) que foi libertado devido ao atrazo na apreciação de um recurso decorrente da doença do Conselheiro a quem estava distribuído.
Será que alguém de bom senso considera justo que um homem fique preso apenas porque outro está doente?
1. Segundo o venerando jornal, o Sr. Dr. Cluny terá dito que é grave soltarem-se criminosos. Foi o jornal que não entendeu o Sr. Dr., foi o Sr. Dr. que se enganou ou, sou eu que não percebo nada disto?
É que no meu tempo, quem estava preso preventivo era, por definição, presumidamente inocente.
2. O mesmo venerando jornal conta a história de um criminoso (lá se foi, mais uma vez, a presunção de inocência) que foi libertado devido ao atrazo na apreciação de um recurso decorrente da doença do Conselheiro a quem estava distribuído.
Será que alguém de bom senso considera justo que um homem fique preso apenas porque outro está doente?
2007-06-05
OTA
Deitei-me passava das 2 da manhã, como fez quem quiz acompanhar o prós e contras sobre a Ota.
Desconfio que a enorme maioria dos portugueses foi dormir muito antes disso.
A consequência é que todos ficarão como dantes, cada um acantonado nas posições que já tinha.
Em boa verdade, não perderam grande coisa: Talvez, apenas, em termos de espectáculo televisivo, as descabeladas intervenções do Sr. Prof. Nunes da Silva que deliberadamente abandonou a postura que se esperava de um eminente cientista (em Portugal todos os professores universitários são eminências científicas, apesar de os resultados não o comprovarem) para adoptar um tom arrogante e comicieiro que melhor ficaria ao Dr. Marques Mendes.
Marques Mendes que (Eduardo Catroga dixit) fez mal em fazer da Ota um problema político.
Eduardo Catroga, por sua vez veio, assumir a posição oficial do PSD de que é preciso estudar. Ora, convém lembrar que este Sr. foi Ministro das Finanças até há menos de 12 anos: O que é que estudou então, ou mandou estudar? Nada. E nada, provavelmente porque nesse tempo uma carrada de iminências (José Gabriel Viegas incluído) achava que, com uns ajustes, a Portela seria eterna.
Ora, se estes senhores fossem coerentes, tendo chegado ontem publicamente à conclusão de que a Portela não chega, deveriam reconher que uma parte grande (a grande parte) da culpa é sua.
As contas são simples de fazer:
a) Se a Portela esgota em 2010-2012;
b) Se um aeroporto demora 7-10 anos a fazer;
c) Se os estudos que agora querem fazer em seis meses ou um ano (é falso: se houver, como deve haver, concursos, mais de seis meses demorará o processo de adjudicação) demoram em condições normais cerca de 3 anos.
A conclusão é que 1995 teria sido uma boa data para iniciar com calma os estudos que agora agitadamente reclamam.
Mas talvez a guerra de "interesses" não seja entre os resorts do litoral alentejano e os resorts do Oeste. Talvez isso seja, apenas, areia para os olhos do maralhal. Talvez os anti-Ota (e a favor de nada, como fazem questão de repetir) estejam apenas a tentar conseguir que se não faça nenhum aeroporto.
Teoria da conspiração? Não, não sou adepto, muito embora as conspirações tenham tendência a parecer-se com as bruxas (que as há, há).
Vejamos:
Parece consensual que vamos ter de, lá para 2010-2012, operacionalizar um segundo aeroporto que seja capaz de complementar a Portela enquanto o novo não está feito.
É da minha vista ou há quem esteja apostado - e não o diz - em eternizar essa solução Portela+1? Quanto custará essa solução?
Interesses todos os temos. Não podemos, por isso, acreditar em Eduardo Catroga quando, candidamente, vem propor que estes assuntos sejam estudados "por uma espécie de sábios" desinteressados, competentes e honestos. Os jornais dizem-nos todos os dias que o povo desconfia dos políticos. Eu prefiro desconfiar dos políticos que me querem convencer que não são políticos.
Declaração de interesses:
O meu interesse pessoal na questão do aeroporto resulta do facto de que, residindo há mais de trinta anos a menos de cinco euros de distância da Portela, estou farto de aturar más educações de taxistas.
Ponham-me o aeroporto mais longe s.f.f.
CGTP
A coisa é pior do que parecia.
Gerónimo de Sousa fala como se fosse dono dos trabalhadores em geral e da GCTP em particular.
Carvalho da Silva parece cada vez mais próximo de me fazer a vontade e deixar o governo da CGTP.
As alternativas, a crer nos jornais, são Mário Nogueira, ex-mandatário da candidatura de Gerónimo de Sousa à Presidência da República (conheço-o de reuniões no Ministério da Educação para discussão do Estatuto da Carreira Docente, já lá vão uns catorze anos, durante os quais todas as lutas de professores encabeçadas pela Fenprof foram, pela simples razão de que não tinham razão, sendo perdidas uma a uma) e um outro nome - para mim absolutamente obscuro - que a imprensa diz pertencer à linha dura do PCP.
São estas as alternativas para o sindicalismo português.
Pobre sindicalismo.
Gerónimo de Sousa fala como se fosse dono dos trabalhadores em geral e da GCTP em particular.
Carvalho da Silva parece cada vez mais próximo de me fazer a vontade e deixar o governo da CGTP.
As alternativas, a crer nos jornais, são Mário Nogueira, ex-mandatário da candidatura de Gerónimo de Sousa à Presidência da República (conheço-o de reuniões no Ministério da Educação para discussão do Estatuto da Carreira Docente, já lá vão uns catorze anos, durante os quais todas as lutas de professores encabeçadas pela Fenprof foram, pela simples razão de que não tinham razão, sendo perdidas uma a uma) e um outro nome - para mim absolutamente obscuro - que a imprensa diz pertencer à linha dura do PCP.
São estas as alternativas para o sindicalismo português.
Pobre sindicalismo.
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