Há largos anos estive profundamente envolvido na realização de um concurso de admissão de pessoal para a função pública com mais de 40.000 candidatos, o maior concurso de provimento realizado até àquela data.
Sendo os lugares disponíveis muito menos que os candidatos e estando fresca a publicação do Código do Procedimento Administrativo, as reclamações e os recursos foram, naturalmente, mais que muitos. Controladas essas reclamações e recursos, em termos que, agora, não interessa explanar mas a imprensa da época reflecte, o concurso lá foi andando até ao fim e ao Visto do Tribunal de Contas.
Não contente com a documentação que lhe havia sido enviada, o Tribunal de Contas oficiou a solicitar o envio de “todo o processo do concurso”. Foi-lhe respondido que o processo ocupava mais de quatrocentas pastas de arquivo pelo que, face a tal volume e à necessidade de alugar uma camioneta para fazer o transporte, se solicitava fosse indicada a data, hora e local onde a entrega poderia ser feita.
Até hoje, que eu saiba, tal ofício nunca teve resposta.
Estava esta história quase esquecida quando dou, neste ano de graça de 2006, pelo pedido do mesmo Tribunal de Contas para que lhe seja enviada, no âmbito de um processo de Visto, fotocópia autenticada de um processo de concurso de pessoal que ocupa mais de 120 pastas de arquivo, seja, números redondos, seguramente mais de 50.000 folhas, de tamanhos diversos (pelo menos A3 e A4), muitas com frente e verso, em papeis de diversas gramagens e texturas.
Tais fotocópias hão-de, naturalmente, ser, em todas as páginas escritas, carimbadas com a certificação de conformidade com o original, devidamente assinada e autenticada com selo branco e, furadas e metidas em outras tantas cento e vinte e tal pastas de arquivo.
Há-de, a seu tempo, ser resolvido o como, quando e onde serão entregues.
Admitindo que uma máquina fotocopiadora de razoável rendimento consegue, no caso, uma produtividade média de 20 cópias por minuto, teremos como tempo de trabalho de máquina de cerca de 7 dias úteis,
De papel, serão cerca de € 260,00.
De pastas de arquivo, cerca de €210,00.
O tempo e os respectivos custos, dos funcionários que hão-de (50.000 vezes) fotocopiar, carimbar, assinar, selar, furar,arquivar e transportar tal massa de papel, mais o custo do toner de impressora e da viatura de transporte, serão calculados por quem tiver mais tempo e paciência que eu próprio.
Havia necessidade?
2006-12-20
2006-12-12
Corrupções
Um novo parecer junto ao processo Apito Dourado defende que um certo fulano, não pode ser acusado de crimes de corrupção passiva porque o cargo que ocupava não é equiparável ao de funcionário público, requisito fundamental daquele ilícito.
Agora se percebe a fúria anti-corrupção de alguns palradores.
Não os atinge.
Todas as tramóias são possíveis porque, não sendo funcionários públicos, por definição não são corruptos.
Interessa pouco ao caso que as suas trampolinices afectem a vida pública com uma intensidade absolutamente fora do alcance da maioria dos funcionários.
Interessa pouco que vivam, todos eles, de um modo ou outro, à conta do orçamento.
Não tomaram posse e isso basta para continuarem livres como pássaros.
Seria risível se não fosse triste.
Mas, na verdade, sempre foi assim.
As leis penais sempre andaram um passo atrás dos criminosos.
Agora se percebe a fúria anti-corrupção de alguns palradores.
Não os atinge.
Todas as tramóias são possíveis porque, não sendo funcionários públicos, por definição não são corruptos.
Interessa pouco ao caso que as suas trampolinices afectem a vida pública com uma intensidade absolutamente fora do alcance da maioria dos funcionários.
Interessa pouco que vivam, todos eles, de um modo ou outro, à conta do orçamento.
Não tomaram posse e isso basta para continuarem livres como pássaros.
Seria risível se não fosse triste.
Mas, na verdade, sempre foi assim.
As leis penais sempre andaram um passo atrás dos criminosos.
2006-12-07
TLEBS
A terminologia linguística para os ensinos básico e secundário é o tema da polémica em curso.
Cheira-me, à luz da experiência, que também esta é uma polémica inútil. Seja, vai ficar tudo na mesma como se não tivesse existido qualquer polémica. Mas é, apenas um feeling (feeling? esta não está, espero, na TLEBS) fruto, talvez, do meu reconhecido mau feitio.
Seja como for, não quero entrar na polémica. No meu tempo havia orações que foram, naquela época, capazes de matar qualquer hipótese de amor da generalidade dos estudantes pela literatura portuguesa. Sem conhecer (o que conheço – dos jornais – é suficiente para me convencar que se trata de coisa com que não quero lidar), aposto que a TLEBS não conseguirá fazer pior.
O problema não é a TLEBS. O problema é um sistema de ensino que ninguém – a não ser alguns dos que dele vivem – compreende ou respeita.
Veja-se o exemplo de uma amiga, mãe de uma criança de dez anos a frequentar o quinto ano de escolaridade:
Ontem a criança apareceu espavorida em casa, dizendo que a professora exigia que hoje chegasse à escola com um livro de receitas tirado da internet.
Parece que o exercício tinha por objectivo exercitar as competências de pesquisa online, transferência e impressão de ficheiros, incluindo fotografias, formatação de textos, com negritos, sublinhados e mais não sei o quê.
Resultado, para aplacar o stress em que a filha notoriamente vive , chegada a casa tarde e más horas (é verdade, há funcionários públicos que trabalham, sem remuneração, muitas horas extraordinárias) a minha amiga decidiu ajudar e, passada a meia-noite, lá estava o livro de receitas tirado da internet concluído.
Levantar cedo, preparar a filha para apanhar a carrinha do colégio (sim, Sr. Prof. Mário Pinto. Trata-se de um colégio privado), até que, na hora do beijo à porta, a criança dispara: Mãe! Não temos bebidas!
Enquanto a filha descia com o pai, a minha amiga fez mais uma correria para o computador, pesquisou, encontrou e imprimiu uma sangria e desceu, sempre a correr, ainda em pijama e meias, até à carrinha que já esperava.
Pergunta simples de um ignorante destas coisas: Não bastaria pedir-se uma receita a cada aluno e juntar tudo, devidamente corrigido na sala de aula, para formar um livro de receitas da turma?
Cheira-me, à luz da experiência, que também esta é uma polémica inútil. Seja, vai ficar tudo na mesma como se não tivesse existido qualquer polémica. Mas é, apenas um feeling (feeling? esta não está, espero, na TLEBS) fruto, talvez, do meu reconhecido mau feitio.
Seja como for, não quero entrar na polémica. No meu tempo havia orações que foram, naquela época, capazes de matar qualquer hipótese de amor da generalidade dos estudantes pela literatura portuguesa. Sem conhecer (o que conheço – dos jornais – é suficiente para me convencar que se trata de coisa com que não quero lidar), aposto que a TLEBS não conseguirá fazer pior.
O problema não é a TLEBS. O problema é um sistema de ensino que ninguém – a não ser alguns dos que dele vivem – compreende ou respeita.
Veja-se o exemplo de uma amiga, mãe de uma criança de dez anos a frequentar o quinto ano de escolaridade:
Ontem a criança apareceu espavorida em casa, dizendo que a professora exigia que hoje chegasse à escola com um livro de receitas tirado da internet.
Parece que o exercício tinha por objectivo exercitar as competências de pesquisa online, transferência e impressão de ficheiros, incluindo fotografias, formatação de textos, com negritos, sublinhados e mais não sei o quê.
Resultado, para aplacar o stress em que a filha notoriamente vive , chegada a casa tarde e más horas (é verdade, há funcionários públicos que trabalham, sem remuneração, muitas horas extraordinárias) a minha amiga decidiu ajudar e, passada a meia-noite, lá estava o livro de receitas tirado da internet concluído.
Levantar cedo, preparar a filha para apanhar a carrinha do colégio (sim, Sr. Prof. Mário Pinto. Trata-se de um colégio privado), até que, na hora do beijo à porta, a criança dispara: Mãe! Não temos bebidas!
Enquanto a filha descia com o pai, a minha amiga fez mais uma correria para o computador, pesquisou, encontrou e imprimiu uma sangria e desceu, sempre a correr, ainda em pijama e meias, até à carrinha que já esperava.
Pergunta simples de um ignorante destas coisas: Não bastaria pedir-se uma receita a cada aluno e juntar tudo, devidamente corrigido na sala de aula, para formar um livro de receitas da turma?
2006-11-14
Greves e Verdades
Nos últimos episódios (até à data), de um ping-pong que começou na manhã do dia da greve, o Diário de Notícias publicou ontem uma notícia segundo a qual, muitos trabalhadores optaram por meter baixa no dia de greve, facto que justificará, em parte as divergências entre Governo e Sindicatos na contagem dos grevistas.
A CGTP reagiu com acusações ao Governo de manipulação da informação.
Ora, esta questão de saber qual a efectiva adesão a uma greve é matéria que não pode deixar de interessar a todos. Ao Governo, porque lhe convém ter um indicador fiável do descontentamento. Aos sindicatos porque, igualmente, lhes convém possuir um indicador fiável da adequação das suas políticas aos interesses dos seus associados.
Estou a ser ingénuo? Parece que sim, uma vez que todos, Sindicatos e Governo, parecem, antes, apostados em esconder a realidade.
Mas, ainda que assim seja e, sobretudo, se assim for, eu, cidadão, tenho o direito de conhecer a verdade.
E, quando os números do Estado se ficam por pouco mais de 10% e os dos Sindicatos apontam para os 80% de adesão, então alguém está a mentir (ou ambos) e, eu, cidadão, tenho o direito de que não me mintam.
Acabem, por isso, com estas picardias.
A greve é um direito e tem uma consequência: o não pagamento do vencimento correspondente.
Nada mais simples, portanto: veja-se, no fim do mês, quantos funcionários sofreram desconto de vencimento no dia da greve. Esse é o número máximo, possível de aderentes à greve.
Deixem-se de picardias e falem-nos verdade.
A CGTP reagiu com acusações ao Governo de manipulação da informação.
Ora, esta questão de saber qual a efectiva adesão a uma greve é matéria que não pode deixar de interessar a todos. Ao Governo, porque lhe convém ter um indicador fiável do descontentamento. Aos sindicatos porque, igualmente, lhes convém possuir um indicador fiável da adequação das suas políticas aos interesses dos seus associados.
Estou a ser ingénuo? Parece que sim, uma vez que todos, Sindicatos e Governo, parecem, antes, apostados em esconder a realidade.
Mas, ainda que assim seja e, sobretudo, se assim for, eu, cidadão, tenho o direito de conhecer a verdade.
E, quando os números do Estado se ficam por pouco mais de 10% e os dos Sindicatos apontam para os 80% de adesão, então alguém está a mentir (ou ambos) e, eu, cidadão, tenho o direito de que não me mintam.
Acabem, por isso, com estas picardias.
A greve é um direito e tem uma consequência: o não pagamento do vencimento correspondente.
Nada mais simples, portanto: veja-se, no fim do mês, quantos funcionários sofreram desconto de vencimento no dia da greve. Esse é o número máximo, possível de aderentes à greve.
Deixem-se de picardias e falem-nos verdade.
2006-11-07
O BE aderiu ao corporativismo
Segundo os jornais de hoje:
O líder do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, propôs, ontem, um sistema de avaliação para os professores dos ensinos Básico e Secundário semelhante ao dos docentes universitários, em alternativa ao processo de quotas defendido pelo Ministério da Educação (ME). "No Ensino Superior temos um modelo de avaliação em que um conjunto de professores da escola e de fora da escola, escolhidos pelas suas capacidades reconhecidas, fazem uma avaliação inter-pares da capacidade pedagógica e da capacidade científica e do trabalho que as pessoas deram à escola", defendeu Francisco Louçã. O líder do BE falava aos jornalistas após visitar uma escola básica de Lisboa. Louçã defendeu que o "modelo de rigor" em que são avaliados os professores do Ensino Superior "deve ser aplicado também nos outros níveis de ensino". Francisco Louçã insurgiu-se contra o sistema de avaliação dos professores proposto pelo ME, que considera ser "um sistema fechado que impede que as pessoas exerçam uma profissão de acordo com as suas capacidades". Segundo Francisco Louçã, "a quota serve para excluir, não para avaliar".
O Dr. Louçã tem, em parelha com o Dr. Mendes e o Gato Fedorento, um problema nem sempre facilmente ultrapassável: Tem horas para falar e tem de dizer coisas originais para agradar a plateias exigentes. Mas isso não justifica tudo.
Quando o triste (tristemente inexistente) papel da Universidade na História de Portugal, deveria levar qualquer alma minimamente séria a concluir que o modelo de avaliação universitária (que todos sabemos se tem caracterizado por tudo menos pelo rigor) deveria ser mudado e não reproduzido, é triste ver esse farol da “esquerda” que o BE arrogantemente se julga, cooptado pelo mais retrogrado corporativismo.
Avaliação pelos pares? Tenha dó Sr. Dr.
Foi a avaliação pelos pares que nos colocou onde estamos!
O líder do Bloco de Esquerda (BE), Francisco Louçã, propôs, ontem, um sistema de avaliação para os professores dos ensinos Básico e Secundário semelhante ao dos docentes universitários, em alternativa ao processo de quotas defendido pelo Ministério da Educação (ME). "No Ensino Superior temos um modelo de avaliação em que um conjunto de professores da escola e de fora da escola, escolhidos pelas suas capacidades reconhecidas, fazem uma avaliação inter-pares da capacidade pedagógica e da capacidade científica e do trabalho que as pessoas deram à escola", defendeu Francisco Louçã. O líder do BE falava aos jornalistas após visitar uma escola básica de Lisboa. Louçã defendeu que o "modelo de rigor" em que são avaliados os professores do Ensino Superior "deve ser aplicado também nos outros níveis de ensino". Francisco Louçã insurgiu-se contra o sistema de avaliação dos professores proposto pelo ME, que considera ser "um sistema fechado que impede que as pessoas exerçam uma profissão de acordo com as suas capacidades". Segundo Francisco Louçã, "a quota serve para excluir, não para avaliar".
O Dr. Louçã tem, em parelha com o Dr. Mendes e o Gato Fedorento, um problema nem sempre facilmente ultrapassável: Tem horas para falar e tem de dizer coisas originais para agradar a plateias exigentes. Mas isso não justifica tudo.
Quando o triste (tristemente inexistente) papel da Universidade na História de Portugal, deveria levar qualquer alma minimamente séria a concluir que o modelo de avaliação universitária (que todos sabemos se tem caracterizado por tudo menos pelo rigor) deveria ser mudado e não reproduzido, é triste ver esse farol da “esquerda” que o BE arrogantemente se julga, cooptado pelo mais retrogrado corporativismo.
Avaliação pelos pares? Tenha dó Sr. Dr.
Foi a avaliação pelos pares que nos colocou onde estamos!
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