Vocês já repararam na imensa quantidade de textos que, tendo como objectivo comum a salvação da Pátria, foram produzidos nos últimos tempos pela classe empresarial portuguesa?
Porque é que esta gente não se dedica, antes, a modernizar as suas empresas?
2004-02-11
Compromisso Portugal
Faltava mais esta. Ao extenso rol de candidatos a salvadores da Pátria, acrescentaram-se agora, de uma vez, seiscentos (seiscentos) empresários, gestores e universitários, todos juntos no Convento do Beato, ouvindo embevecidos esse d. sebastião económico da direita que dá pelo nome de António Borges, cujo invejável currículo se resume assim: director de uma escola em França, presidente de uma assembleia municipal eleito pelo PSD, vice-presidente de uma multinacional cujo “Nosso objetivo é fornecer retornos superiores a nossos accionistas” (tal como consta no respectivo site – tradução automática, pelo Google, do inglês), seja, uma multinacional que se está borrifando, muito de alto, para Portugal, para os portugueses, para os trabalhadores em geral e para os trabalhadores portugueses em particular.
O Sr. António Borges quer salvar Portugal mas nunca dirigiu uma empresa, nunca produziu um prego ou uma couve que fosse. Não. O seu negócio é dinheiro. Quanto mais dinheiro puder dar aos seus accionistas melhor para si. Se isso exigir o despedimento de metade de Portugal, tanto faz. Se isso exigir levar à falência metade dos empresários que o aplaudiram no Convento do Beato e o vão aplaudir nos próximos dias, um pouco por todo o país, tanto faz. Eles não são accionista da Goldman Sachs. Não é para eles que o Prof. tem de arranjar “retornos superiores”. Compromisso Portugal? É mentira. O compromisso do Prof. António Borges é com os accionistas da Goldman Sachs.
O Sr. António Borges quer salvar Portugal mas nunca dirigiu uma empresa, nunca produziu um prego ou uma couve que fosse. Não. O seu negócio é dinheiro. Quanto mais dinheiro puder dar aos seus accionistas melhor para si. Se isso exigir o despedimento de metade de Portugal, tanto faz. Se isso exigir levar à falência metade dos empresários que o aplaudiram no Convento do Beato e o vão aplaudir nos próximos dias, um pouco por todo o país, tanto faz. Eles não são accionista da Goldman Sachs. Não é para eles que o Prof. tem de arranjar “retornos superiores”. Compromisso Portugal? É mentira. O compromisso do Prof. António Borges é com os accionistas da Goldman Sachs.
2004-02-03
Funcionários
Um funcionário público é, no imaginário do comum dos portugueses, um poltrão incompetente que não faz nem sabe.
Sempre assim foi e sempre assim será mas, há momentos, como o que agora vivemos, em que a coisa toma uma dimensão insuportável. É quando a sociedade inteira, Governo incluído, resolve fazer dos funcionários públicos o bode expiatório de todas as desgraças.
Curioso é que, para toda a gente, funcionários públicos são os outros.
Curioso é que, quando tentamos esmiuçar a coisa, ninguém é funcionário público.
Os governantes são governantes, apesar de lhes caber a eles, em primeira linha, defender a res pública, os militares são militares, os magistrados são magistrados (a Dr.ª M.ª José Morgado disse mesmo, recentemente, (cito de cor) que havia muitos magistrados a agir como funcionários públicos), os enfermeiros e médicos são enfermeiros e médicos, os professores são, naturalmente, professores, os engenheiros são engenheiros, os informáticos só sabem de informática, os investigadores investigam, os conservadores e guardas de museu dedicam a vida à Arte e a meninas da Loja do Cidadão são umas simpáticas meninas que nos atendem na Loja do Cidadão.
Estou mesmo convencido que também o tratador de cavalos da Coudelaria de Alter acha que não tem nada a ver com o assunto. Que é apenas tratador de cavalos. Isso permite-lhe, também a ele, zurzir sem dó nem piedade nos funcionários públicos.
Seria bom que alguém tentasse pôr ordem nisto.
E respondesse a esta questão simples:
De que falamos quando falamos de funcionários públicos?
Sempre assim foi e sempre assim será mas, há momentos, como o que agora vivemos, em que a coisa toma uma dimensão insuportável. É quando a sociedade inteira, Governo incluído, resolve fazer dos funcionários públicos o bode expiatório de todas as desgraças.
Curioso é que, para toda a gente, funcionários públicos são os outros.
Curioso é que, quando tentamos esmiuçar a coisa, ninguém é funcionário público.
Os governantes são governantes, apesar de lhes caber a eles, em primeira linha, defender a res pública, os militares são militares, os magistrados são magistrados (a Dr.ª M.ª José Morgado disse mesmo, recentemente, (cito de cor) que havia muitos magistrados a agir como funcionários públicos), os enfermeiros e médicos são enfermeiros e médicos, os professores são, naturalmente, professores, os engenheiros são engenheiros, os informáticos só sabem de informática, os investigadores investigam, os conservadores e guardas de museu dedicam a vida à Arte e a meninas da Loja do Cidadão são umas simpáticas meninas que nos atendem na Loja do Cidadão.
Estou mesmo convencido que também o tratador de cavalos da Coudelaria de Alter acha que não tem nada a ver com o assunto. Que é apenas tratador de cavalos. Isso permite-lhe, também a ele, zurzir sem dó nem piedade nos funcionários públicos.
Seria bom que alguém tentasse pôr ordem nisto.
E respondesse a esta questão simples:
De que falamos quando falamos de funcionários públicos?
Pitágoras? Conheço bem, mas não sei como se chama
Aqui há uns anos, quando andava a fazer uma casa, vi o Sr. Almerindo, mestre de obras, a marcar os alicerces.
A coisa faz-se espetando umas estacas sobre as quais se fixam umas tábuas na horizontal, onde se esticam cordéis que vão definir, com rigor, o lugar dos alicerces.
Pois o Sr. Almerindo, esticado o cordel que definia a parede mais longa e assinalado com um prego cravado na dita tábua, o local exacto do cunhal, esticou o cordel por mais 80 cm meticulosamente medidos e cravou novo prego. A partir daí e para a esquerda baixa do lado oposto àquele para onde se devia desenvolver a segunda parede que havia de fazer com a primeira um ângulo de 90º, com os mesmos modos rigorosos mediu um metro e, com o lápis, traçou um arco de circunferência na perpendicular do primeiro prego. Foi-se, de seguida ao prego cravado no lugar exacto do cunhal e, para o lado onde tinha traçado o primeiro arco, com o mesmo método mediu 60 cm e traçou, a lápis, novo arco que se foi cruzar com aquele outro que antes tinha feito.
Aí, no exacto ponto de encontro de ambos os arcos, cravou novo prego.
Passou o cordel pelos três pregos e esticou-o até ao comprimento da nova parede.
Ah! Com que então o Sr. Almerindo conhece o teorema de Pitágoras!
Não Sr. Dr. Nada disso. Isto é assim: 3 para aqui, 4 para ali, 5 para acolá e temos um ângulo recto. Se em vez de 3, 4, 5 usarmos 6, 8, 10, ou 9, 12, 15 e por aí afora, também dá.
A coisa faz-se espetando umas estacas sobre as quais se fixam umas tábuas na horizontal, onde se esticam cordéis que vão definir, com rigor, o lugar dos alicerces.
Pois o Sr. Almerindo, esticado o cordel que definia a parede mais longa e assinalado com um prego cravado na dita tábua, o local exacto do cunhal, esticou o cordel por mais 80 cm meticulosamente medidos e cravou novo prego. A partir daí e para a esquerda baixa do lado oposto àquele para onde se devia desenvolver a segunda parede que havia de fazer com a primeira um ângulo de 90º, com os mesmos modos rigorosos mediu um metro e, com o lápis, traçou um arco de circunferência na perpendicular do primeiro prego. Foi-se, de seguida ao prego cravado no lugar exacto do cunhal e, para o lado onde tinha traçado o primeiro arco, com o mesmo método mediu 60 cm e traçou, a lápis, novo arco que se foi cruzar com aquele outro que antes tinha feito.
Aí, no exacto ponto de encontro de ambos os arcos, cravou novo prego.
Passou o cordel pelos três pregos e esticou-o até ao comprimento da nova parede.
Ah! Com que então o Sr. Almerindo conhece o teorema de Pitágoras!
Não Sr. Dr. Nada disso. Isto é assim: 3 para aqui, 4 para ali, 5 para acolá e temos um ângulo recto. Se em vez de 3, 4, 5 usarmos 6, 8, 10, ou 9, 12, 15 e por aí afora, também dá.
Túneis
À acusação de que o túnel das Amoreiras estaria a ser construído ilegalmente por inexistência de estudos e projectos obrigatórios, PSL reagiu alegando que também os seus antecessores cometeram o mesmo pecado.
Ora, tal silogismo apenas pode ter uma conclusão: A de que, de futuro, todos os túneis podem ser feitos sem os estudos e projectos legalmente obrigatórios.
Esta conclusão é, obviamente, inadmissível, como qualquer um entende.
Os limites da lógica escolástica são conhecidos, relevam, frequentemente, do mero bom senso e eram, antigamente, exemplificados no manual de Filosofia do 7º ano do Liceu com o silogismo do cão: A constelação é cão. O cão ladra. Logo, a constelação ladra.
Não deixa, por isso, de ser impressionante que este tipo de argumentação primária e absoleta domine o discurso “político” e, mais grave, que de seguida e de salto se passe para o discurso moralista e sensório, segundo o qual quem antes pecou não pode apontar a outrem o mesmo pecado.
É evidente que este círculo vicioso é o alimento da impunidade geral e tem que ser rompido.
Como fez o Zé Tita quando encontrou o irmão a bater na mãe:
Pegou num cacete e partiu-lhe um braço. A mãe também batia na avó, dizia o outro no intervalo dos gemidos de dor. Pois. Mas essa cadeia tem de ser quebrada. E é agora!
Ora, tal silogismo apenas pode ter uma conclusão: A de que, de futuro, todos os túneis podem ser feitos sem os estudos e projectos legalmente obrigatórios.
Esta conclusão é, obviamente, inadmissível, como qualquer um entende.
Os limites da lógica escolástica são conhecidos, relevam, frequentemente, do mero bom senso e eram, antigamente, exemplificados no manual de Filosofia do 7º ano do Liceu com o silogismo do cão: A constelação é cão. O cão ladra. Logo, a constelação ladra.
Não deixa, por isso, de ser impressionante que este tipo de argumentação primária e absoleta domine o discurso “político” e, mais grave, que de seguida e de salto se passe para o discurso moralista e sensório, segundo o qual quem antes pecou não pode apontar a outrem o mesmo pecado.
É evidente que este círculo vicioso é o alimento da impunidade geral e tem que ser rompido.
Como fez o Zé Tita quando encontrou o irmão a bater na mãe:
Pegou num cacete e partiu-lhe um braço. A mãe também batia na avó, dizia o outro no intervalo dos gemidos de dor. Pois. Mas essa cadeia tem de ser quebrada. E é agora!
Subscrever:
Mensagens (Atom)