2004-01-07

Reformas

Temos, portanto, promulgada a lei que fixa a idade normal de aposentação dos funcionários públicos nos 60 anos.
O que sobre isto aconteceu nos últimos 13 meses devia envergonhar todos os portugueses.
De um lado uma solução de ilusionista tirada do chapéu do Governo. Do outro uma total ausência de idéias, um acrítico fincar de pés em supostos direitos adquiridos.
A solução do governo não tem em consideração nem as pessoas afectadas nem as necessidades do serviço público. Trata-se, tão só, de mais uma medida para equilibrar os indicadores macroeconómicos.
O finca pé dos funcionários não tem em atenção quaisquer necessidades colectivas. Trata-se, tão só, de tentar manter vantagens.
Equilíbrio dos indicadores macroeconómicos! Eis um problema cujo resolução os economicistas não esperam que afecte significativamente a seu standard de vida.
Direitos adquiridos! Eis um conceito que faz muito jeito a funcionários e a construtores civis.
E, no entanto, deveria ter havido um amplo debate sobre a questão porque, obviamente, se trata de uma questão importante.
Quatro achegas para esse debate por fazer:
a) os empregados que descontam para a Segurança Social reformam-se com quarenta anos de serviço. O que é que justifica que os portugueses não sejam, também nesta matéria, todos iguais?
b) os empregados que descontam para a Segurança Social reformam-se com 80% do vencimento. O que é que justifica que os portugueses não sejam, também nesta matéria, todos iguais?
c) a administração pública pode modernizar-se mantendo ao seu serviço os milhares de pessoas que, normalmente, se aposentariam nos próximos 4, 5 anos?
d) a sociedade pode suportar o desemprego dos milhares de jovens que, normalmente, ingressariam na função pública em substituição dos (não) aposentados?

2004-01-06

George?

A Geórgia é uma República, algures no sul da antiga URSS de que os portugueses em geral e eu em particular pouco sabem e, pelos vistos, pouco lhes interessa (ao menos a atentar que a notícia sobre os resultados das eleições presidenciais mereceu um único comentário no Sapo).
A notícia, no entanto é perturbante e devia perturbar-nos a todos.
Mikhail Saakachilli acaba de ser eleito presidente com um resultado ainda não totalmente apurado mas que cresce à medida que se avança na contagem dos votos. Já vai, ao que parece, nos 97,5%.
É certo que ainda não li nem ouvi nada que possa levar-me a pensar que as eleições não foram absolutamente livres. Mas 97,5%?
O Sr. Bush (que algumas más línguas teimam que só lá chegou através de uma chapelada eleitoral) devia estar atento e lançar, de imediato uma guerra preventiva. O homem até pode não ser, nem nunca chegar a ser, um ditador. Mas desta vez o Bush pode, sem falsificações, apoiar-se na História: No passado nunca houve nenhuma eleição livre que alguém ganhasse por tal margem. Só ditadores ( Salazar incluído – não se esqueçam) almejaram tais scores.
É claro que, mesmo que Mikhail Saakachilli venha a ser um ditador, há diferenças importantes que não podemos esquecer: Por um lado o homem é amigo dos americanos. Por outro, indo ainda mais longe que o Paulinho das feiras que também é amigo dos americanos e dos desprotegidos em geral, prometeu aos georgianos um aumento das reformas de 5 para 10 euros mensais.
Quem é o eleitor que pode resistir a tamanho amor pelo próximo?

2003-12-30

Um TGV às arrecuas

Voltamos a andar para trás.
De novo parece que cada um quer ter o TGV a passar-lhe no quintal (vocês imaginam o barulho e a deslocação de ar que a coisa faz?) e a parar-lhe à porta.
Agora é a Assembleia Municipal de Coimbra que unanimemente (a unanimidade é património coimbrão, pelo menos desde Souselas – a propósito, alguém sabe onde estão a pôr o lixo?) exige uma estação de TGV e mais, exige que o nó de ligação a Madrid ali fique também.
Diz o Dr. Carlos Encarnação que não quer ter de vir a Lisboa para ir a Madrid.
Mas que raio quer ele ir fazer a Madrid? Prestar vassalagem? (Pela sensibilidade que mostrou quando era Secretário de Estado duvido que queira ir ver o Prado ou o Rainha Sofia).
Mas o importante não é isso. Por mim pode ir para Madrid ou, de preferência, para a Conchinchina e não voltar.
O importante é que tudo não passa de manobras para inviabilizar o TGV que, obviamente, ou não pára em Coimbra ou não é TGV.
É tempo de passarmos a dar menos atenção à notícia do dia e tentarmos ver um bocadinho mais longe.
Quanto ao TGV e ao novo Aeroporto que, necessariamente lhe está associado, importa ler bons textos que, apesar de tudo, ainda vão sendo publicados. Preste-se alguma atenção ao que dizem, por exemplo, o Reis Borges ou o António Brotas.
É tempo de percebermos que o anúncio do TGV feito pelo Dr. Durão Barroso após conversa com o Sr. Aznar, implica a morte do Aeroporto da OTA.
É tempo de percebermos que as posições agora expressas por Coimbra inviabilizam o TGV Lisboa-Porto e terão apenas por efeito dar um apoio suplementar a este Governo que não quer o Aeroporto da OTA (com o que, aliás, estou de acordo), nem quer o TGV.
Porquê? Porque o TGV só é competitivo com os meios de transporte mais lentos – outros comboios e automóveis -, ou mais rápidos – avião -, em distâncias entre os 300 e os 600 kilómetros. Logo, um TGV Lisboa-Porto não pode parar na Ota nem em Coimbra, nem no Entroncamento, nem em qualquer outra estação intermédia.
A verdade é que uma linha Lisboa-Porto modernizada, (incluindo a rectificação do traçado, em diversos pontos) onde os actuais comboios ALFA Pendolino possam desenvolver a velocidade de que são capazes (mais de 200 km/hora), é a única solução compatível com qualquer das hipóteses possíveis, para a necessária ligação a Espanha (à Europa) e, bem assim, com a eventual construção de um aeroporto a Norte de Lisboa e com uma paragem em Coimbra. (A construção de um Aeroporto a sul de Lisboa tornaria o TGV competitivo mas, apenas, num Percurso Porto-Novo Aeroporto-Lisboa, sem outras paragens).

2003-12-24

Ladysmith Black Mambazo

Ouvi pela primeira vez os Ladysmith Black Mambazo na televeisão, num concerto do Paul simon - Live in San sebastian - de promoção do álbum Graceland.
Cantaram "Homeless".
Hoje, véspera e Natal, comecei o dia a ouvir os instrumentistas negros de Ladysmith e o homeless.
Não tem nada a ver com o Natal nem com sem-abrigos.
É apenas o prazer de ouvir o mais fabuloso dos instrumentos já inventados - a voz humana.
com a vantagem de que, não sabendo eu inglês nem, muito menos, zulu, o que leio na capa do CD é quase nada e o que ouço é música.
Apenas música.

2003-12-22

Manifesto Natalício

Server este texto para apresentar algumas reflexões sobre esta quadra que nos envolve e consome.
A época desperta em mim um misto de sensações. Venhode uma longa tradição de natais
felizes em família, com prendas em abundância para distribuir por miúdos e graúdos, o que à primeira vista deveria indicar uma admiração incondicional pela época. Não entanto não posso deixar de reparar que o Natal é talvez a
mais clara demonstração de completa inversão de valores em que vivemos, emespecial a vergonhosa manipulação das crianças (penso que a publicidade explicitamente dirigida às crianças deveria ser pura e simplesmente
proibida) a que se assiste em dimensões inimagináveis. Que é que cada um de nós procura e vê no natal? Dúvido que alguém se lembre ou dê importância á raiz religiosa. Eu confesso que não procuro nem festejo nada no Natal que
não seja a desculpa para estar em festa junto com a minha família.

Outro fenómeno curioso é que o Natal (ou melhor, o rescaldo do natal) é um dos primeiros instantes em que as crianças se apercebem que também elas não são todas iguais. Excepto nos tristes casos de carência efectiva de bens
essenciais (comida e vestuário), as crianças mais pequenas não são capazesde distinguir o seu "status" social, elas não percebem a diferença entre umas calças de €10 e umas de €100, entre o pai de um menino ter um mercedes
e outro um fiat. Até que no natal essas diferenças entram no seu mundo que, por pressão do consumo, deixou de ser um mundo de brincadeiras e passou a ser um mundo de brinquedos. Os pais estão conscientes deste fenómeno e
rapidamente entram numa espiral de loucura em que compram tudo à criança com medo do trauma e recordações de carência (mais frequentes no seu tempo).

Resumindo: o Natal, como qualquer outra boa desculpa para reunir a família, deve focar-se no fortalecimentos
dos laços que naturalmente nos unem. Como diz sempre o meu santo paizinho: "Os amigos a gente escolhe, os vizinhos e a família a gente tem!". Este fatalismo não é necessáriamente mau e cria uma verdadeira relação de longo
prazo, tão fora de moda nos nossos dias.

um bom Natal!