2003-12-24

Ladysmith Black Mambazo

Ouvi pela primeira vez os Ladysmith Black Mambazo na televeisão, num concerto do Paul simon - Live in San sebastian - de promoção do álbum Graceland.
Cantaram "Homeless".
Hoje, véspera e Natal, comecei o dia a ouvir os instrumentistas negros de Ladysmith e o homeless.
Não tem nada a ver com o Natal nem com sem-abrigos.
É apenas o prazer de ouvir o mais fabuloso dos instrumentos já inventados - a voz humana.
com a vantagem de que, não sabendo eu inglês nem, muito menos, zulu, o que leio na capa do CD é quase nada e o que ouço é música.
Apenas música.

2003-12-22

Manifesto Natalício

Server este texto para apresentar algumas reflexões sobre esta quadra que nos envolve e consome.
A época desperta em mim um misto de sensações. Venhode uma longa tradição de natais
felizes em família, com prendas em abundância para distribuir por miúdos e graúdos, o que à primeira vista deveria indicar uma admiração incondicional pela época. Não entanto não posso deixar de reparar que o Natal é talvez a
mais clara demonstração de completa inversão de valores em que vivemos, emespecial a vergonhosa manipulação das crianças (penso que a publicidade explicitamente dirigida às crianças deveria ser pura e simplesmente
proibida) a que se assiste em dimensões inimagináveis. Que é que cada um de nós procura e vê no natal? Dúvido que alguém se lembre ou dê importância á raiz religiosa. Eu confesso que não procuro nem festejo nada no Natal que
não seja a desculpa para estar em festa junto com a minha família.

Outro fenómeno curioso é que o Natal (ou melhor, o rescaldo do natal) é um dos primeiros instantes em que as crianças se apercebem que também elas não são todas iguais. Excepto nos tristes casos de carência efectiva de bens
essenciais (comida e vestuário), as crianças mais pequenas não são capazesde distinguir o seu "status" social, elas não percebem a diferença entre umas calças de €10 e umas de €100, entre o pai de um menino ter um mercedes
e outro um fiat. Até que no natal essas diferenças entram no seu mundo que, por pressão do consumo, deixou de ser um mundo de brincadeiras e passou a ser um mundo de brinquedos. Os pais estão conscientes deste fenómeno e
rapidamente entram numa espiral de loucura em que compram tudo à criança com medo do trauma e recordações de carência (mais frequentes no seu tempo).

Resumindo: o Natal, como qualquer outra boa desculpa para reunir a família, deve focar-se no fortalecimentos
dos laços que naturalmente nos unem. Como diz sempre o meu santo paizinho: "Os amigos a gente escolhe, os vizinhos e a família a gente tem!". Este fatalismo não é necessáriamente mau e cria uma verdadeira relação de longo
prazo, tão fora de moda nos nossos dias.

um bom Natal!

2003-12-17

Resposta ao Dr. Pedrovs

É bom para o ego saber que temos leitores (se calhar o plural é exagero).
Quanto aos dicionários de rimas, são velhos e sempre tiveram muito uso.
O problema não é esse.
O que me angustia é o valor das palavras. Tinha eu meio escrito o post anterior que, então, ainda se chamava Pai Natal Eu Quero quando a Clara Ferreira Alves publicou, na Única do Expresso, um texto diferente mas da mesma inspiração. Aí hesitei e o Pai Natal esteve quase a caminho do lixo.
Servem para alguma coisa estes escritos?
Os da CFA são profissionais. É daí que lhe vem o sustento. Estão justificados. Os meus são o quê?
Words, words, words. Será que o velho Wiliam já sabia tudo?
Ou, como queria o Almada, já estão escritas todas as palavras que hão-de salvar o mundo, só falta salvar o mundo?
São estas angústias que justificam as intermitências deste blog

2003-12-15

Dicas para uma carta ao Pai Natal

Pai Natal eu quero
O nenuco que toma banho
Um peluche do meu tamanho
Uma bicicleta que a que tenho
está na terra do meu pai aldeia de Pardilhó
em casa da minha avó
Quero uns ténis novos da Brooklin (estes Nike metem dó
o modelo já não se usa)
E quero também uma blusa
linda que vi na Fashion
Um after shave lotion
e um perfume da Escada
Não quero que me falte nada
Um computador, montes de jogos
Uma barbie dançarina
Uma caixa de pokemons
e uma outra de bombons que é para dar à professora
Uma consola
Um discman
Muitos CD
e para o quarto uma TV
Netcabo ADSL
Telemovel Telecel
E aos dezoito um automóvel
Os livros do Harry Potter
Uma minissaia da Zara
Muita roupa da mais cara
Umas meias Benneton
Eu quero tudo de bom
Do Ralph Lauren um polo
e outro da QuebraMar
Um relógio da Swatch
Um outro da Timberland
Uma mesada bem grande
Um fato da Tavar
Um biquini para nadar
No inverno ir esquiar
para Andorra nos Pirinéus
E um óculos iguais aos teus
Uns boxers às risquinhas
E outros com campaínhas
As jeans quero da Salsa
Um taco de baisebol
Uma bola de futebol
do Euro 2004
Mais um par de sapatos
Uma alcofa para os gatos
E o resto que não me lembra
E um leitor de MP3
Pai Natal
Eu quero tudo de uma vez
Eu mereço
Nesta época nunca esqueço
A miséria que há no mundo

Oh! Que poema profundo.
















2003-12-11

O perú de plástico

“... se o peru (o falso perú de plástico com que Bush se fez fotografar no Iraque, tentando convencer-nos que se tratava de um verdadeiro perú) ganha tanto relevo é porque nele se consubstancia um estilo que a Administração americana promoveu: a realidade não basta em si mesma, é preciso produzi-la e encená-la.
Foi este o caso da mulher-soldado Jessica Lynch, transformada em heroína pelo Pentágono para poder fornecer um argumento para um filme. Tudo falso, como se veio a comprovar. E foi este o estatuto das famosas "armas de destruição maciça", que cada vez mais aparecem como um pretexto claramente encenado para convencer a opinião pública mundial. A QUESTÃO ESTÁ EM SABERMOS ATÉ QUE PONTO ESTES REINCIDENTES FALSIFICADORES DA REALIDADE PODERÃO SER OS MELHORES DEFENSORES DA VERDADE DEMOCRÁTICA.” (Eduardo Prado Coelho – PÚBLICO, 11-12-2003)

Os EUA Divulgaram Ontem Uma Lista de 63 Países Autorizados a Concorrer a Contratos para a Reconstrução do Iraque com a Verba Recentemente Aprovada pelo Congresso, e Que Exclui Os Que Se Opuseram à Guerra, Nomeadamente a França, a Alemanha, a Rússia e o Canadá. Portugal Está Entre Os 63 Autorizados a Competir. (PÚBLICO, 11-12-2003)

Os americanos acabam, assim, de reintroduzir o direito de saque nas relações internacionais. Como na Idade Média, os vencedores arrogam-se o direito de reservar para si os despojos da guerra.
Será que a humanidade vai ficar a ver? Cobardemente. Em silêncio? Digam-me Senhores seguidores acríticos do Grande Cowboy.
Será que as regras internacionais permitirão amanhã conduta idêntica a um governo iraquiano (ainda que um governo fantoche dos EEUU)?
Será que a comunidade e as regras internacionais permitiriam, hoje, ao governo português afastar dos contratos as empresas de um qualquer país com base em tais argumentos? (Por exemplo proibir empresas alemãs de contratar em Portugal?)
Podem, à luz do direito internacional, fazer os EEUU dentro do seu próprio território, o que querem fazer no Iraque?
Pergunta mais comezinha: Porque hão-de poder os EEUU promover empreitadas no Iraque? Pela mesma razão, e só por essa razão, que o Sr. Junot pode, no seu tempo, promover empreitadas em Portugal.