2003-12-17

Resposta ao Dr. Pedrovs

É bom para o ego saber que temos leitores (se calhar o plural é exagero).
Quanto aos dicionários de rimas, são velhos e sempre tiveram muito uso.
O problema não é esse.
O que me angustia é o valor das palavras. Tinha eu meio escrito o post anterior que, então, ainda se chamava Pai Natal Eu Quero quando a Clara Ferreira Alves publicou, na Única do Expresso, um texto diferente mas da mesma inspiração. Aí hesitei e o Pai Natal esteve quase a caminho do lixo.
Servem para alguma coisa estes escritos?
Os da CFA são profissionais. É daí que lhe vem o sustento. Estão justificados. Os meus são o quê?
Words, words, words. Será que o velho Wiliam já sabia tudo?
Ou, como queria o Almada, já estão escritas todas as palavras que hão-de salvar o mundo, só falta salvar o mundo?
São estas angústias que justificam as intermitências deste blog

2003-12-15

Dicas para uma carta ao Pai Natal

Pai Natal eu quero
O nenuco que toma banho
Um peluche do meu tamanho
Uma bicicleta que a que tenho
está na terra do meu pai aldeia de Pardilhó
em casa da minha avó
Quero uns ténis novos da Brooklin (estes Nike metem dó
o modelo já não se usa)
E quero também uma blusa
linda que vi na Fashion
Um after shave lotion
e um perfume da Escada
Não quero que me falte nada
Um computador, montes de jogos
Uma barbie dançarina
Uma caixa de pokemons
e uma outra de bombons que é para dar à professora
Uma consola
Um discman
Muitos CD
e para o quarto uma TV
Netcabo ADSL
Telemovel Telecel
E aos dezoito um automóvel
Os livros do Harry Potter
Uma minissaia da Zara
Muita roupa da mais cara
Umas meias Benneton
Eu quero tudo de bom
Do Ralph Lauren um polo
e outro da QuebraMar
Um relógio da Swatch
Um outro da Timberland
Uma mesada bem grande
Um fato da Tavar
Um biquini para nadar
No inverno ir esquiar
para Andorra nos Pirinéus
E um óculos iguais aos teus
Uns boxers às risquinhas
E outros com campaínhas
As jeans quero da Salsa
Um taco de baisebol
Uma bola de futebol
do Euro 2004
Mais um par de sapatos
Uma alcofa para os gatos
E o resto que não me lembra
E um leitor de MP3
Pai Natal
Eu quero tudo de uma vez
Eu mereço
Nesta época nunca esqueço
A miséria que há no mundo

Oh! Que poema profundo.
















2003-12-11

O perú de plástico

“... se o peru (o falso perú de plástico com que Bush se fez fotografar no Iraque, tentando convencer-nos que se tratava de um verdadeiro perú) ganha tanto relevo é porque nele se consubstancia um estilo que a Administração americana promoveu: a realidade não basta em si mesma, é preciso produzi-la e encená-la.
Foi este o caso da mulher-soldado Jessica Lynch, transformada em heroína pelo Pentágono para poder fornecer um argumento para um filme. Tudo falso, como se veio a comprovar. E foi este o estatuto das famosas "armas de destruição maciça", que cada vez mais aparecem como um pretexto claramente encenado para convencer a opinião pública mundial. A QUESTÃO ESTÁ EM SABERMOS ATÉ QUE PONTO ESTES REINCIDENTES FALSIFICADORES DA REALIDADE PODERÃO SER OS MELHORES DEFENSORES DA VERDADE DEMOCRÁTICA.” (Eduardo Prado Coelho – PÚBLICO, 11-12-2003)

Os EUA Divulgaram Ontem Uma Lista de 63 Países Autorizados a Concorrer a Contratos para a Reconstrução do Iraque com a Verba Recentemente Aprovada pelo Congresso, e Que Exclui Os Que Se Opuseram à Guerra, Nomeadamente a França, a Alemanha, a Rússia e o Canadá. Portugal Está Entre Os 63 Autorizados a Competir. (PÚBLICO, 11-12-2003)

Os americanos acabam, assim, de reintroduzir o direito de saque nas relações internacionais. Como na Idade Média, os vencedores arrogam-se o direito de reservar para si os despojos da guerra.
Será que a humanidade vai ficar a ver? Cobardemente. Em silêncio? Digam-me Senhores seguidores acríticos do Grande Cowboy.
Será que as regras internacionais permitirão amanhã conduta idêntica a um governo iraquiano (ainda que um governo fantoche dos EEUU)?
Será que a comunidade e as regras internacionais permitiriam, hoje, ao governo português afastar dos contratos as empresas de um qualquer país com base em tais argumentos? (Por exemplo proibir empresas alemãs de contratar em Portugal?)
Podem, à luz do direito internacional, fazer os EEUU dentro do seu próprio território, o que querem fazer no Iraque?
Pergunta mais comezinha: Porque hão-de poder os EEUU promover empreitadas no Iraque? Pela mesma razão, e só por essa razão, que o Sr. Junot pode, no seu tempo, promover empreitadas em Portugal.


2003-11-15

O fio de Ariadne

Não pode sair do labirinto quem não reconhece o caminho que o lá levou.
Há um labirinto em Bagdad onde, todos os dias, os aventureiros oferecem jovens em sacrifício.
Vai ser assim até que a sensata Aradne comece a desenrolar o seu fio.

2003-11-12

Ataíja de Cima

Como já terão percebido por um post anterior, Ataíja de Cima é a minha terra.
Se me der na veneta, ainda hei-de aqui escrever algumas coisas sobre o único lugar do Mundo onde não me importava de ser cego, porque conheço os caminhos e os carreiros, os cheiros, as paredes e as casas e as pessoas pelo tom de voz.
Mas isso ficará para outra altura.
Este post é só para a hipótese de ser lido por alguém que conheça a Ataíja de Cima, lá resida, lá tenha nascido ou lá tenha amigos. Se é o caso não se esqueça.
Dia 18 de Janeiro de 2004, vai ter lugar o 5º almoço anual do SALÃO CULTURAL ATAÍJENSE.
Até lá.

Quantos são?

O Governo está a braços com uma tarefa impossível: O recenseamento da função pública.
Como em todos os outros recenseamentos anteriores, vamos chegar ao fim (quando chegarmos, porque muitos serviços não foram capazes de cumprir o prazo inicial e, não tenho dúvidas, muitos deles hão-de acabar por fornecer dados muito martelados), mais uma vez, sem saber ao certo quantos funcionários temos.
Nada que devesse espantar quem conhece minimamente o problema.
Lembro-me de, há cerca de 15 anos, numa conferência organizada pelo STE, o representante da então República Federal Alemã começar a sua intervenção perguntando: quantos funcionários públicos há na RFA? E responder sorrindo: depende da maneira de os contarmos.
Seja, o recenseamento da função pública não é possível enquanto se não definirem regras claras e rígidas de contagem.
E não me venham com facilitismos. Quem acha que é fácil, experimente colocar à discussão, à mesa do café com os amigos, os seguintes problemas: como é que se conta o enfermeiro que pertence ao quadro de um hospital público mas presta, também, serviço no INEM? Como é que se conta o professor universitário que dá aulas em duas universidades públicas ou é, ao mesmo tempo, funcionário ou dirigente de um serviço público? Ou, melhor ainda, comecem a discussão por responder às seguintes questões: Porquê e para quê queremos um recenseamento da Função Pública?

2003-10-29

Acordeão, violino e trompa

A inefável cidade de Alcobaça (não confundir com o concelho do mesmo nome) esteve recentemente envolvida em mais uma polémica, não diria estéril mas, certamente, lamentável. Desta vez foi música. E qual a razão da polémica? Pois, tanto quando dá para perceber, o caso é que alguns melómanos da ilustre cidade pensam que o seu instrumento é melhor que o dos outros e, daí, que tem direito a mais subsídio público.
Não é novidade. Nem o apetite pelo subsídio, nem as zangas entre músicos. Lembro-me mesmo de ter lido algures que, numa terrinha deste santo Portugal, havia duas bandas filarmónicas. Resultado: Escolhiam, meticulosamente, sair à rua no mesmo dia e a coisa acabava, invariavelmente, num arraial de porrada.
Ora, não me parece que a porrada seja solução e, como acredito que os polemistas - que, aliás não conheço - são pessoas civilizadas, interessadas no progresso, designadamente cultural, da sua terra, como acredito nisso e o Sr. Director do REGIÃO DE CISTER, pôs termo à dita polémica que já lhe vinha ocupando (inutilmente, digo eu) muitas páginas do jornal, permito-me, acalmados os ardores da refrega, sugerir uma alternativa:
Que cada um, de acordo com os seus gostos e competências, comece desde já a ajudar na preparação do seu festival favorito do próximo ano, seja ele o Cistermúsica, seja a Semana Internacional de Acordeão.
Que ambos os festivais sejam programados de modo a poderem chegar ao maior número possível de munícipes, com concertos desconcentrados no maior número de localidades possível.
Sugiro, mesmo, que averiguem as condições do Salão Cultural Ataíjense e, se possível, para aí programem concertos, (no que terão, certamente, todo o apoio da respectiva direcção). Pelo menos dois: um do Cistermúsica e outro da Semana Internacional de Acordeão.
Mais me permito sugerir que, os mesmos ou alguém comece, desde já, a programar um terceiro festival de música: O Festival de Música das Bandas de Alcobaça, onde participem todas as bandas filarmónicas existentes no Concelho.
E não se esqueçam! Tentem que possa haver concertos por todo o concelho. Um deles pode ser na Ataíja de Cima.

2003-10-25

Portugal

Terra desgraçada.
Terra minúscula.
Tão pequena que nela não cabem duas conversas ao mesmo tempo.

O ladrão e o marialva

Manuel Maria Carrilho publicou no Diário de Notícias uma carta aberta aos socialistas onde disse com clareza aquilo que já muitos e não apenas militantes do PS, vinham a dizer, fosse em escritos de opinion makers diversos, fosse em surdina ou conversas informais entre militantes do PS.

O homem disse e acontece esta coisa espantosa (ou nem por isso): Todos se viram contra ele. Uns porque falou tarde, outros porque mais valia estar calado.

É assim a vida. Como descobriu o PGR num raro rasgo de lucidez, os comentários (as opiniões) são perigosos.

Mas o caso do Manuel Maria Carrilho é mais grave. Não se trata, apenas do drama português de ser preso por ter cão e por o não ter, nem, sequer, desse silogismo político-jornalistíco segundo o qual a conclusão lógica da crítica é o oferecimento para a substituição do criticado.

O caso é, meu caro Manuel Maria Carrilho, que você não tem hipótese na política portuguesa.

A malta odeia-o.
Esse nobre sentimento da inveja obnublia-os a todos.
O que é que você queria?
Roubou a miúda gira.
Queria que estes marialvas retardados ficassem contentes?

2003-10-17

Manifesto contra o trabalho

Um dos últimos livros que li e sobre o qual tenho planeado uma entrada neste blog foi o : "Manifesto contra o trabalho", uma compilação de um grupo de reflexão alemão (Grupo Krisis: http://www.krisis.org). Trata-se de um conjunto de ideias anarquistas recauchutadas com uma visão pós-marxista que não assume plenamente as suas influências base.
Se é verdade que tenho alguma dificuldade em identificar-me com as ideias apresentadas e com as soluções propostas, a leitura ajudou-me a solidificar algumas ideias que vinha a formar sobre o assunto. O trabalho está efectivamente a tornar-se um valor por si, um valor que o tradutor caracterizou de "autotélico", reforçando a visão protestante da vida que aparentemente está a tomar conta da sociedade.
Já não é a primeira vez que alguém se dirige a mim com um orgulhoso: "sou um workaholic", expressão que confesso não me cai bem. O que será que leva as pessoas a orgulharem-se de tal dependência? A "encher a boca" para assumir que provavelmente é explorado não sabe bem por quê, não sabe bem por quem, e provavelmente nem sequer por necessidade, antes fruto de processos pouco estruturados ou inexistentes, de gestores medíocres e cobardes numa economia efectivamente competitiva em que os resultados têm que aparecer a qualquer preço (excepto o da deterioração dos indicadores). Estas pessoas abdicam de forma voluntária de um crescimento humano mais abrangente (a cultura, a família, o lazer ou o desporto) por esse valor pouco claro que é uma suposta hiper-competência que tipicamente nem sequer se reflecte na remuneração ou no alargamento dos períodos de férias, apenas na clássica (aparentemente do agrado do nosso governo) palmadinha nas costas e, com um bocadinho de azar, de uma carta de despedimento.

2003-10-16

Parabéns

Serve esta entrada no Fado para dar os meus parabéns aos meus pais, José e Mª Helena Quitério, que fazem hoje 27 anos de casados.
Sem querer entrar na discussão do valor e importância do casamento enquanto instituição social, devo confessar que me considero um privilegiado enquanto parte (dizem as más línguas que também motor de arranque) deste casamento.
Que fique registado na blogosfera que estes pais, são uns bons pais e que (como é moda nos dias de hoje) o facto de o filho ter saído assim pode perfeitamente ser atribuído á conjuntura externa (ele sempre viu demasiada televisão...).

Um beijo grande e muitos mais anos de felicidade.

2003-08-12

Associativismo, emparcelamento, transmissão

A questão da propriedade florestal e da sua estrutura é, consensualmente, facto a ter em conta em qualquer solução ou pacote de soluções a adoptar com vista a atingir, se não o fim dos fogos florestais, pelo menos a sua redução a dimensões geríveis.
A inadequação da actual estrutura fundiária é claramente assumida pelo Ministro da Agricultura quando reconhece que os proprietários não vão cumprir a legislação porque a limpeza ficaria mais cara que o valor da madeira. Isto dito, (deixando de lado o facto estranho de ver um governante admitir que a legislação é inadequada e sistematicamente violada sem, ao menos, propor a sua substituição), e comparando com a afirmação de um gestor do grupo Sonae de que, e não duvido que tenha razão, a madeira portuguesas é cara, temos todos, sem mais argumentos, de aceitar que é preciso reformular a propriedade silvícola ou as formas da sua gestão. Quanto a isto, são geralmente avançadas duas soluções (a) o associativismo florestal (b) o emparcelamento.
Ora, o associativismo (que era, de resto, uma das propostas do programa de governo do PP) tem algumas dificuldades, aliás amplamente verificadas no associativismo agrícola em geral e vitivinícola em particular que, na estruturada economia controlada do salazarismo, se multiplicou em cooperativas agrícolas, cuja triste história se saldou, num tremendo fracasso económico que levou à extinção ou definhamento irreversível da maioria delas. Muitas não sem que, antes, sorvessem largas quantias, aos associados, ao Estado e à banca. É que essas cooperativas do salazarismo tinham um pecado original: existiam não tanto para benefício dos seus associados (a maioria deles sem o grau de instrução mínimo que lhes permitisse qualquer intervenção nos destinos da cooperativa), mas como instrumentos de controlo da política económica.
Não é por agora vivermos em democracia que as coisas vão ser, necessariamente, diferentes. Os problemas de base mantém-se ou agravaram-se: (i) fraca experiência de trabalho em associação, (ii) nível educacional baixo, (iii) idades avançadas (iiii) enormes diferenças entre os potenciais associados que constituem uma mescla que engloba sociedades agrícolas (investimentos financeiros), agricultores profissionais, reformados, proprietários ausentes, agricultores de fim de semana ou de fim de dia.
Não é possível associar gente tão diferente, já que é da natureza das associações que todos os seus membros sejam iguais.
Quanto ao emparcelamento, é ideia de engenheiros que choca com condicionantes ideológicas que, desde há décadas, impedem que tenha tido, qualquer expressividade relevante em termos nacionais ou, até, regionais (o Prof. Alfredo de Sousa contava que a ideia do emparcelamento veio de um secretário de Estado do Salazar, chamado Mota Campos a quem, por isso, alcunharam de Mata Campos).
Não quero, com isto, dizer que não haja casos em que pode a solução ser o associativismo, como noutros pode ser o emparcelamento. Mas as soluções só serão eficazes se forem aceites por aqueles que as têm de implementar. Há, pois, que dar todas as possibilidades aos interessados de escolher o que mais lhe interessa e não pode, por isso, o Estado deixar de criar condições para que, a par do associativismo edo emparcelamento, possam os proprietários florestais optar pelo modo mais óbvio de alteração da estrutura da propriedade que é a compra e venda entre vizinhos. Isso deve ser feito e pode ser feito, pelas razões e do modo que expus no post FOGO!

2003-08-05

FOGO!

O ordenamento florestal é entendido, por quase toda a gente, como uma necessidade e um meio incontornável para conseguir a limitação da extensão e violência dos incêndios que, mais uma vez este ano e numa escala talvez nunca vista, assolam o Verão português.
Não discutindo nenhuma das formas que têm sido avançadas para conseguir tal ordenamento, convicto, aliás, que todas as formas devem ser possíveis de adoptar, sendo que a cada caso concreto se aplicará uma melhor do que outra, julgo que há uma ou duas que não me lembro de ter visto referidas mas, estou certo, são fáceis de implementar e podem ajudar.
Se nos lembrarmos das profundas mutações sociais sofridas por Portugal nos anos recentes teremos de reconhecer que:
- A população rural diminuiu drasticamente (o distrito de Portalegre tem hoje metade da população que tinha em 1974).
- A utilização da lenha como combustível doméstico (e industrial, cerâmica, por ex.) e do mato como cama de animais e revestimento de pátios e caminhos está reduzida a zero (quando eu era pequeno as ruas da minha aldeia eram todas cobertas de mato, estrumeiras, hoje Pitões das Júnias tem as ruas calcetadas e cobertas de merda de vaca).
- O pastoreio desapareceu.
- Centenas de aldeias perderam toda a justificação porque já ninguém vive em economia de subsistência.
- A população que resta está envelhecida ou diminuída (baixíssima escolaridade, abundante iliteracia, frequentes casos de alcoolismo e outras patologias).
Do que resultou a abandono de terras aráveis hoje cobertas de eucaliptos ou de pinheiros estes, em regra, de nascimento espontâneo e, por isso, absolutamente desordenados, os quais ocupam as várzeas onde antes corriam ribeiros e se fazia a horta – e por isso não ardiam – e por onde hoje se desenvolvem e correm os fogos (passem na próxima semana ou no mês que vem por Mação, Sertã, Vila de Rei, por onde quiserem. Desçam as encostas calcinadas e vejam, lá no fundo, por entre as estacas queimadas, os carreiros de pé-posto, as pontes – uma lage – sobre os ribeiros, as paredes e os socalcos das hortas dos nossos avós).
Essas terras abandonadas são de quem?
Há 600.000 proprietários florestais em Portugal, dizem responsáveis. Errado, digo eu. Juridicamente, os proprietários florestais são mais de 2.000.000.
A tal horta abandonada onde crescem os pinheiros espontâneos foi registada pela última vez em nome do avô, que deixou 5 filhos, que tiveram 12 netos. Com os respectivos cônjuges são 24. Muita gente? Já vi terras mais pequenas partilhadas por 40 herdeiros.
A maior parte deles nunca lá foi nem sabe onde fica. (Estão agora impressionados com as imagens da televisão mas para a semana esquecem. De facto, o rendimento anual que dali tiram não dá para jantar fora com a família).

Imagine agora que os 24 se dão todos muito bem e resolvem vender ao vizinho do lado que está interessado em aumentar a seu próprio terreno para 2.000 metros e tem a expectativa de, com duas ou três compras destas, conseguir uma exploração de dimensão que justifique investimento em ordenamento e limpeza.
Fazer o trato sucessivo (ou a escritura de usucapião, excrescência medieval que, semana após semana. enche as páginas dos jornais regionais), inscrever na matriz, registar (quantos centos de euros já lá vão?). Procurações (quanto custam? Se forem irrevogáveis mais de € 100 cada) ou, em alternativa, juntar todos os 25 no Notário. Ah! E o comprador paga 5% de sisa (como é que se chama agora?).
O legislador daria certamente um bom contributo ao ordenamento florestal se tornasse totalmente gratuitas todas as operações legais tendentes a propiciar a compra e venda destes terrenos, com a única condição de que tal servisse para unificar dois terrenos contíguos. E a burocracia onde fica? OK. Eu transijo. Ponham lá que a gratuitidade fica condicionada aos casos em que da operação não resulte uma área superior ao dobro da unidade de cultura. (A propósito de unidade de cultura. Quando é que foi fixada pela última vez? Tem alguma relação com as actuais condições técnicas de exploração?).
Claro que um bom cadastro geométrico ajudava. Custaria muito que uma parte dos milhões que se anunciam fossem dirigidos para a sua realização?

2003-07-24

Reforma da Administração Pública IV

Os funcionários públicos são acusados de, entre outras coisas, não terem incentivo porque independentemente de fazerem muito ou pouco, melhor ou menos bem, são promovidos ao fim de três anos.
Não é bem assim. Mas é verdade é que o salário dos funcionários depende do seu posicionamento na carreira e este, em regra, evolui segundo dois factores: 1. Progressão, que é automática e implica a subida ao escalão seguinte da categoria, em regra, cada três anos e, 2. Promoção, que depende de concurso para o qual se exige, também em regra, a permanência durante três anos na categoria.
Este sistema tornou-se, com o decurso do tempo (todas as práticas tendem para a degradação) injusto. Injusto porque (a) da progressão se pode dizer, efectivamente, que é automática e, (b) porque as promoções tendem a depender, essencialmente, de um factor inteiramente alheio ao funcionário e é a existência ou não de verba orçamental que permita a abertura do concurso. É que, havendo dinheiro há, em regra, lugar para todos. Não havendo dinheiro, não há lugar para ninguém. Cada funcionário de um serviço sem dinheiro conhece bem aquele colega que – esperto – se transferiu para um serviço onde o trabalho é pouco e há sempre dinheiro e, passados meses, já fez concurso e já está na categoria seguinte inteiramente a latere do tempo de serviço, do mérito relativo e da quantidade e da qualidade do trabalho de cada um.

Ora, este é um problema relativamente fácil de resolver, assim os reformadores da Função Pública sejam capazes de pensar e de ouvir os que pensam sobre estes assuntos.

Deixando por agora as progressões, basta que os serviços – todos - tenham orçamentos realistas para fazer face às suas despesas de pessoal e sejam adoptadas, relativamente aos concursos, duas medidas simples de implementar: (i) que se abram concursos, para todas as categorias, todos os anos e, (ii) que cada concurso seja aberto para um número de vagas que não exceda a metade dos funcionários com mais de três anos na categoria. Tal obrigaria os júris a escolher. É fundamental que os júris sejam obrigados a escolher, coisa que hoje não podem fazer, ainda que o quisessem, quando são mais os lugares que os concorrentes.

2003-07-16

habeas corpus

O habeas corpus não passou.
Previsível!
O objectivo é, aliás, ou muito me engano, chegar aos tribunais europeus.
Absolutamente de acordo.
Se eu for preso amanhã quero saber exactamente porquê.

2003-07-08

A medalha

Ouvi na televisão que a Sr.ª Secretária de Estado da Administração Pública disse que o mérito dos funcionários será compensado com reconhecimento, mas não com dinheiro.
Se foi isto que disse mais valia, com o devido respeito, estar calada. As suas afirmações podem pôr em causa toda a reforma, designadamente na vertente, fundamental, da sua compreensão e aceitação pelos destinatários.
Não é assim que as empresas compensam o mérito.
Não vale falar de adopção das regras da gestão privada e, desde logo, afastar a aplicabilidade de uma das suas características fundamentais que é a distinção salarial de acordo com a importância do trabalhador para a organização.

Avaliação

É difícil não estar de acordo com os propósitos de reforma da administração pública anunciados pelo Governo.
Eu próprio, tenho defendido, em conversas nas mais diversas situações, designadamente com outros funcionários e dirigentes, soluções que me parecem perfeitamente compatíveis com as linhas orientadoras que foram publicadas.
Mas há que não ser simplista. Na imensa floresta de enganos que é a Administração Pública há que distinguir entre as diversas árvores, arbustos e simples ervinhas. Há que distinguir entre administração pública e função pública, há que distinguir as diversas realidades que cabem sob o chavão “administração pública” e mais uma enorme quantidade de coisas obviamente distintas.
Pode-se e deve-se falar de tudo mas, de preferência, não ao mesmo tempo.
Avaliação, por exemplo:
A esmagadora maioria dos funcionários sabe que a classificação de serviço não funciona e todos a querem mudar, porque todos se sentem e são, efectivamente, prejudicados por ela.
Mas não creio que se possam avaliar funcionários sem avaliar dirigentes, ou que se possam avaliar dirigentes sem avaliar serviços.
Avaliações por entidades internas e externas, incluindo por entidades estrangeiras? Tudo bem, os funcionários estão calmos e serenos, até porque sabem bem que não vai haver nenhuma consultora estrangeira que conclua que o mau funcionamento do seu serviço é culpa do contínuo A ou do assistente administrativo B.
O que a consultora irá concluir é que a missão do serviço está mal definida, que as suas competências são difusas ou conflituantes com as de um outro, que os meios materiais, financeiros e humanos estão desajustados, seja por excesso seja por defeito, que não foram implementados planos de formação ou de carreiras, etc. etc.
Os funcionários estão tão abertos à mudança que aceitarão que se comece, apesar de tudo, pela avaliação do desempenho. Isto porque uma das coisas que mais os desgosta é a rasoira que faz de todos iguais.

2003-07-05

Fátima

O Tito José Augusto Sampaio Gomes, não o vejo há mais de trinta anos, quando ambos éramos furriéis milicianos no quartel-General do CTIG, em Bissau, mas quem é que se ia esquecer de um nome assim? Melhor, acho o encontrei há, talvez, uns dois anos, na esquina do Rossio com a Betesga. Trocámos palavras. Desculpe. Não o conheço? Acho que não. Pois. Acho que não. Desculpe. Boa-tarde. Íamos longe quando liguei circunstância e personagem. O Tito era alto, loiro, petulante, monárquico com um bigode retorcido nas pontas a condizer, vocalista de um grupo Rock do Porto, a Lanterna Mágica, de cuja existência nunca tive outra confirmação. O Tito tinha um sonho que, com frequentemente, expressava em voz alta, nas noites longas de calor e humidade em que o tempo se arrastava pegajoso pelo clube de sargentos: Ver um concerto dos Rolling Stones na esplanada da Cova da Iria.
Agora Fátima é concelho.
O primeiro da família a peregrinar foi o meu avô Joaquim Coelho Quitério, um dos que, em Outubro de 19717, viu o sol bailar. O meu avô viu coisas extraordinárias, uma fábrica de óleo de baleia (ou era de cachalote?) em Tróia, o Gungunhana cativo, a caminho do exílio em Angra do Heroísmo.
Mais de quarenta anos depois, por duas ou três vezes, segui os mesmos caminhos. Saíamos da Ataíja, meia-noite cerrada, um pequeno rancho, a minha avó Maria Lourenço, a ti’Maria da Graça, uma dúzia ou menos, comandado pela ti’Maria Rosalía, a passada cadenciada, ritmo marcado pela ladainha do terço rezado em voz alta e pelo treino da guia, obtido nas longas andanças, em passo miúdo, entre a Ataíja e o Cadoiço e os Casais de Santa Teresa e do Rei, aplicando as injecções prescritas pelo médico da longínqua Alcobaça. Que a ti’Maria Rosalía, além de católica devota, irmã do Sagrado Coração, de freiras e de emigrantes, cultivava as terras da herança familiar e era a única pessoa que, nas redondezas, sabia dar injecções. Lembro-me dela com uma caixinha onde transportava a seringa e as agulhas que desinfectava pelo fogo numa bola de algodão alcoolizado. Íamos por Casais de Santa Teresa, Casal do Boieiro, Pedreiras, Tourões, Corredoura onde naquele tempo havia um endireita, Porto de Mós e montes acima até ao Alqueidão da Serra onde se acabavam os caminhos, substituídos por veredas de terra polida pelos pés, a maioria descalços e um vaivém de burros sem cabresto, serpenteando no ladear das rochas emergentes de onde hoje nasce a calçada à portuguesa e até São Mamede, os Vinte da feira de gado, com chegada marcada ao recinto do Santuário lá pelas dez horas da manhã que, a partir daí, o sol de Agosto queima. À noite, estendida ali mesmo a manta, comia-se a bucha e os mais velhos descansavam, dormitando ou fingindo, enquanto os mais novos sussurravam conversas de circunstância ou preliminares de namoro que a jornada a todos oferecia um tempo longo e raro e por isso precioso. No dia treze, mal terminada a procissão do Adeus, era tempo de tomar o caminho do regresso, mais quase trinta quilômetros, que hoje se faz de carro e merece, que a paisagem lá está, até ao horizonte quando se começa a descer do Alqueidão, à espera de olhos que a saibam ver (há, também, uma estrada romana, mas disso talvez falemos noutra altura).
Com a percentagem de residentes de Fátima que são membros da Igreja e dependente que a economia do concelho está da Igreja, vai ser muito curioso ver como é que a Igreja se relaciona com o poder político local. O resto, a discussão à volta da criação do concelho, com os mesmos protagonistas e os mesmos argumentos de sempre, essa está prestes a ser esquecida.

2003-06-30

ordenação

O Rui foi ontem ordenado Padre.
Não sou católico mas não tenho dúvidas de que um bom Padre pode ajudar muita gente a ser feliz.
Desejo sinceramente que o Rui o possa fazer.

2003-06-27

Subam o nível

O post do João exige que também eu diga alguma coisa. Mas não tenho certezas sobre o que ficará bem dizer nesta circunstãncia.
Digo-vos, só, que ter filhos é bom.
Ah! e um aviso: isto não vai ser uma conversa mediata entre pai e filho.
Vamos então fazer o que o João disse que eu vou aqui fazer:
Eu raramente vejo notícias na Net e quase nunca vejo os comentários às notícias. Fi-lo a propósito do anúncio pelo primeiro-Ministro da Reforma da Administração Pública e que vi eu?
Centenas de comentários, rasteiros quase todos, metade insultando o governo e o chefe do governo e tudo quanto é chefe e a outra metade insultando os funionários públicos.
Façam o favor de subir o nível