Terra desgraçada.
Terra minúscula.
Tão pequena que nela não cabem duas conversas ao mesmo tempo.
2003-10-25
O ladrão e o marialva
Manuel Maria Carrilho publicou no Diário de Notícias uma carta aberta aos socialistas onde disse com clareza aquilo que já muitos e não apenas militantes do PS, vinham a dizer, fosse em escritos de opinion makers diversos, fosse em surdina ou conversas informais entre militantes do PS.
O homem disse e acontece esta coisa espantosa (ou nem por isso): Todos se viram contra ele. Uns porque falou tarde, outros porque mais valia estar calado.
É assim a vida. Como descobriu o PGR num raro rasgo de lucidez, os comentários (as opiniões) são perigosos.
Mas o caso do Manuel Maria Carrilho é mais grave. Não se trata, apenas do drama português de ser preso por ter cão e por o não ter, nem, sequer, desse silogismo político-jornalistíco segundo o qual a conclusão lógica da crítica é o oferecimento para a substituição do criticado.
O caso é, meu caro Manuel Maria Carrilho, que você não tem hipótese na política portuguesa.
A malta odeia-o.
Esse nobre sentimento da inveja obnublia-os a todos.
O que é que você queria?
Roubou a miúda gira.
Queria que estes marialvas retardados ficassem contentes?
O homem disse e acontece esta coisa espantosa (ou nem por isso): Todos se viram contra ele. Uns porque falou tarde, outros porque mais valia estar calado.
É assim a vida. Como descobriu o PGR num raro rasgo de lucidez, os comentários (as opiniões) são perigosos.
Mas o caso do Manuel Maria Carrilho é mais grave. Não se trata, apenas do drama português de ser preso por ter cão e por o não ter, nem, sequer, desse silogismo político-jornalistíco segundo o qual a conclusão lógica da crítica é o oferecimento para a substituição do criticado.
O caso é, meu caro Manuel Maria Carrilho, que você não tem hipótese na política portuguesa.
A malta odeia-o.
Esse nobre sentimento da inveja obnublia-os a todos.
O que é que você queria?
Roubou a miúda gira.
Queria que estes marialvas retardados ficassem contentes?
2003-10-17
Manifesto contra o trabalho
Um dos últimos livros que li e sobre o qual tenho planeado uma entrada neste blog foi o : "Manifesto contra o trabalho", uma compilação de um grupo de reflexão alemão (Grupo Krisis: http://www.krisis.org). Trata-se de um conjunto de ideias anarquistas recauchutadas com uma visão pós-marxista que não assume plenamente as suas influências base.
Se é verdade que tenho alguma dificuldade em identificar-me com as ideias apresentadas e com as soluções propostas, a leitura ajudou-me a solidificar algumas ideias que vinha a formar sobre o assunto. O trabalho está efectivamente a tornar-se um valor por si, um valor que o tradutor caracterizou de "autotélico", reforçando a visão protestante da vida que aparentemente está a tomar conta da sociedade.
Já não é a primeira vez que alguém se dirige a mim com um orgulhoso: "sou um workaholic", expressão que confesso não me cai bem. O que será que leva as pessoas a orgulharem-se de tal dependência? A "encher a boca" para assumir que provavelmente é explorado não sabe bem por quê, não sabe bem por quem, e provavelmente nem sequer por necessidade, antes fruto de processos pouco estruturados ou inexistentes, de gestores medíocres e cobardes numa economia efectivamente competitiva em que os resultados têm que aparecer a qualquer preço (excepto o da deterioração dos indicadores). Estas pessoas abdicam de forma voluntária de um crescimento humano mais abrangente (a cultura, a família, o lazer ou o desporto) por esse valor pouco claro que é uma suposta hiper-competência que tipicamente nem sequer se reflecte na remuneração ou no alargamento dos períodos de férias, apenas na clássica (aparentemente do agrado do nosso governo) palmadinha nas costas e, com um bocadinho de azar, de uma carta de despedimento.
Se é verdade que tenho alguma dificuldade em identificar-me com as ideias apresentadas e com as soluções propostas, a leitura ajudou-me a solidificar algumas ideias que vinha a formar sobre o assunto. O trabalho está efectivamente a tornar-se um valor por si, um valor que o tradutor caracterizou de "autotélico", reforçando a visão protestante da vida que aparentemente está a tomar conta da sociedade.
Já não é a primeira vez que alguém se dirige a mim com um orgulhoso: "sou um workaholic", expressão que confesso não me cai bem. O que será que leva as pessoas a orgulharem-se de tal dependência? A "encher a boca" para assumir que provavelmente é explorado não sabe bem por quê, não sabe bem por quem, e provavelmente nem sequer por necessidade, antes fruto de processos pouco estruturados ou inexistentes, de gestores medíocres e cobardes numa economia efectivamente competitiva em que os resultados têm que aparecer a qualquer preço (excepto o da deterioração dos indicadores). Estas pessoas abdicam de forma voluntária de um crescimento humano mais abrangente (a cultura, a família, o lazer ou o desporto) por esse valor pouco claro que é uma suposta hiper-competência que tipicamente nem sequer se reflecte na remuneração ou no alargamento dos períodos de férias, apenas na clássica (aparentemente do agrado do nosso governo) palmadinha nas costas e, com um bocadinho de azar, de uma carta de despedimento.
2003-10-16
Parabéns
Serve esta entrada no Fado para dar os meus parabéns aos meus pais, José e Mª Helena Quitério, que fazem hoje 27 anos de casados.
Sem querer entrar na discussão do valor e importância do casamento enquanto instituição social, devo confessar que me considero um privilegiado enquanto parte (dizem as más línguas que também motor de arranque) deste casamento.
Que fique registado na blogosfera que estes pais, são uns bons pais e que (como é moda nos dias de hoje) o facto de o filho ter saído assim pode perfeitamente ser atribuído á conjuntura externa (ele sempre viu demasiada televisão...).
Um beijo grande e muitos mais anos de felicidade.
Sem querer entrar na discussão do valor e importância do casamento enquanto instituição social, devo confessar que me considero um privilegiado enquanto parte (dizem as más línguas que também motor de arranque) deste casamento.
Que fique registado na blogosfera que estes pais, são uns bons pais e que (como é moda nos dias de hoje) o facto de o filho ter saído assim pode perfeitamente ser atribuído á conjuntura externa (ele sempre viu demasiada televisão...).
Um beijo grande e muitos mais anos de felicidade.
2003-08-12
Associativismo, emparcelamento, transmissão
A questão da propriedade florestal e da sua estrutura é, consensualmente, facto a ter em conta em qualquer solução ou pacote de soluções a adoptar com vista a atingir, se não o fim dos fogos florestais, pelo menos a sua redução a dimensões geríveis.
A inadequação da actual estrutura fundiária é claramente assumida pelo Ministro da Agricultura quando reconhece que os proprietários não vão cumprir a legislação porque a limpeza ficaria mais cara que o valor da madeira. Isto dito, (deixando de lado o facto estranho de ver um governante admitir que a legislação é inadequada e sistematicamente violada sem, ao menos, propor a sua substituição), e comparando com a afirmação de um gestor do grupo Sonae de que, e não duvido que tenha razão, a madeira portuguesas é cara, temos todos, sem mais argumentos, de aceitar que é preciso reformular a propriedade silvícola ou as formas da sua gestão. Quanto a isto, são geralmente avançadas duas soluções (a) o associativismo florestal (b) o emparcelamento.
Ora, o associativismo (que era, de resto, uma das propostas do programa de governo do PP) tem algumas dificuldades, aliás amplamente verificadas no associativismo agrícola em geral e vitivinícola em particular que, na estruturada economia controlada do salazarismo, se multiplicou em cooperativas agrícolas, cuja triste história se saldou, num tremendo fracasso económico que levou à extinção ou definhamento irreversível da maioria delas. Muitas não sem que, antes, sorvessem largas quantias, aos associados, ao Estado e à banca. É que essas cooperativas do salazarismo tinham um pecado original: existiam não tanto para benefício dos seus associados (a maioria deles sem o grau de instrução mínimo que lhes permitisse qualquer intervenção nos destinos da cooperativa), mas como instrumentos de controlo da política económica.
Não é por agora vivermos em democracia que as coisas vão ser, necessariamente, diferentes. Os problemas de base mantém-se ou agravaram-se: (i) fraca experiência de trabalho em associação, (ii) nível educacional baixo, (iii) idades avançadas (iiii) enormes diferenças entre os potenciais associados que constituem uma mescla que engloba sociedades agrícolas (investimentos financeiros), agricultores profissionais, reformados, proprietários ausentes, agricultores de fim de semana ou de fim de dia.
Não é possível associar gente tão diferente, já que é da natureza das associações que todos os seus membros sejam iguais.
Quanto ao emparcelamento, é ideia de engenheiros que choca com condicionantes ideológicas que, desde há décadas, impedem que tenha tido, qualquer expressividade relevante em termos nacionais ou, até, regionais (o Prof. Alfredo de Sousa contava que a ideia do emparcelamento veio de um secretário de Estado do Salazar, chamado Mota Campos a quem, por isso, alcunharam de Mata Campos).
Não quero, com isto, dizer que não haja casos em que pode a solução ser o associativismo, como noutros pode ser o emparcelamento. Mas as soluções só serão eficazes se forem aceites por aqueles que as têm de implementar. Há, pois, que dar todas as possibilidades aos interessados de escolher o que mais lhe interessa e não pode, por isso, o Estado deixar de criar condições para que, a par do associativismo edo emparcelamento, possam os proprietários florestais optar pelo modo mais óbvio de alteração da estrutura da propriedade que é a compra e venda entre vizinhos. Isso deve ser feito e pode ser feito, pelas razões e do modo que expus no post FOGO!
A inadequação da actual estrutura fundiária é claramente assumida pelo Ministro da Agricultura quando reconhece que os proprietários não vão cumprir a legislação porque a limpeza ficaria mais cara que o valor da madeira. Isto dito, (deixando de lado o facto estranho de ver um governante admitir que a legislação é inadequada e sistematicamente violada sem, ao menos, propor a sua substituição), e comparando com a afirmação de um gestor do grupo Sonae de que, e não duvido que tenha razão, a madeira portuguesas é cara, temos todos, sem mais argumentos, de aceitar que é preciso reformular a propriedade silvícola ou as formas da sua gestão. Quanto a isto, são geralmente avançadas duas soluções (a) o associativismo florestal (b) o emparcelamento.
Ora, o associativismo (que era, de resto, uma das propostas do programa de governo do PP) tem algumas dificuldades, aliás amplamente verificadas no associativismo agrícola em geral e vitivinícola em particular que, na estruturada economia controlada do salazarismo, se multiplicou em cooperativas agrícolas, cuja triste história se saldou, num tremendo fracasso económico que levou à extinção ou definhamento irreversível da maioria delas. Muitas não sem que, antes, sorvessem largas quantias, aos associados, ao Estado e à banca. É que essas cooperativas do salazarismo tinham um pecado original: existiam não tanto para benefício dos seus associados (a maioria deles sem o grau de instrução mínimo que lhes permitisse qualquer intervenção nos destinos da cooperativa), mas como instrumentos de controlo da política económica.
Não é por agora vivermos em democracia que as coisas vão ser, necessariamente, diferentes. Os problemas de base mantém-se ou agravaram-se: (i) fraca experiência de trabalho em associação, (ii) nível educacional baixo, (iii) idades avançadas (iiii) enormes diferenças entre os potenciais associados que constituem uma mescla que engloba sociedades agrícolas (investimentos financeiros), agricultores profissionais, reformados, proprietários ausentes, agricultores de fim de semana ou de fim de dia.
Não é possível associar gente tão diferente, já que é da natureza das associações que todos os seus membros sejam iguais.
Quanto ao emparcelamento, é ideia de engenheiros que choca com condicionantes ideológicas que, desde há décadas, impedem que tenha tido, qualquer expressividade relevante em termos nacionais ou, até, regionais (o Prof. Alfredo de Sousa contava que a ideia do emparcelamento veio de um secretário de Estado do Salazar, chamado Mota Campos a quem, por isso, alcunharam de Mata Campos).
Não quero, com isto, dizer que não haja casos em que pode a solução ser o associativismo, como noutros pode ser o emparcelamento. Mas as soluções só serão eficazes se forem aceites por aqueles que as têm de implementar. Há, pois, que dar todas as possibilidades aos interessados de escolher o que mais lhe interessa e não pode, por isso, o Estado deixar de criar condições para que, a par do associativismo edo emparcelamento, possam os proprietários florestais optar pelo modo mais óbvio de alteração da estrutura da propriedade que é a compra e venda entre vizinhos. Isso deve ser feito e pode ser feito, pelas razões e do modo que expus no post FOGO!
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