2011-10-20

Carta Aberta ao deputado Pedro Saraiva

Sr. Deputado Pedro Saraiva




Acabei de ler o seu currículo no site do grupo parlamentar do PSD e parece-me que o posso tratar assim, simplesmente, por Sr.

Diz lá, no currículo, que é professor catedrático e, por aí, talvez o devesse tratar por Senhor Professor Doutor. Mas, também lá diz que frequentou um doutoramento e, se é certo que para ser Doutor é, normalmente, necessário ter frequentado um doutoramento, não é, de todo, normal que os Doutores digam que frequentaram um doutoramento. Concluo, pois, que o Sr. não é Doutor embora, acredite, fale com eles.

Parece-me, assim, correcto tratá-lo por Sr., como mandam as regras da boa educação.

Boa educação não é, aliás, ensina a minha experiência pessoal, requisito para se ser professor universitário e confirma-o o gesto mal-educado da distribuição de post-its aos seus colegas deputados, num tique de mau professor universitário, comediante frustrado que confunde o estrado onde dá aulas com um palco de teatro e, na plateia, só vê alunos ignorantes e calaças.

É, por outro lado, evidente que o grupo parlamentar do PSD precisa de boas sugestões.

Ora, as pessoas vivem dos seus rendimentos (usada, aqui, a palavra rendimento no sentido corrente de conjunto de proveitos financeiros regulares, independentemente de a sua origem ser o trabalho, o capital, os negócios ou qualquer outra actividade lícita) e o Sr. deputado foi eleito em representação das pessoas do distrito de Coimbra, independentemente das origens do dinheiro de que essas pessoas vivem.

Sugiro, pois, o seguinte:

Que explique, ao Sr. Ministro da Finanças, a todo o Governo e aos seus colegas deputados da maioria parlamentar, que não interessa em quantas prestações são os rendimentos recebidos ao longo do ano. Que as pessoas vivem é do dinheiro que recebem ao longo do ano. Que, se apenas se olhar para as pessoas que recebem os seus rendimentos em catorze prestações, então estamos a olhar, apenas, para quem trabalha ou já trabalhou. Explique-lhes mais: que se apenas se olhar para quem trabalha ou já trabalhou na Função Pública, então isso significa colocar o encargo da salvação de Portugal sobre os ombros de, apenas, uma parte dos portugueses.

Estou certo de que o Sr. deputado fará o favor de reconhecer que a minha sugestão é clara e cristalina, de execução simples e de uma justiça que até uma criança entende, quanto mais um professor universitário, por arrogante que seja.

2009-11-10

Nostalgias

Um amigo meu, agora num atempado e merecido gozo da reforma, ocupa uma boa parte do seu tempo na internet enviando à sua mailing list um grande conjunto de emails de diverso tipo: fotografias de maravilhas da natureza, fotografias de tempos antigos, artigos de opinião (estes, todos, contra o governo que o meu amigo julga a encarnação do mal e da estupidez).



Um dia destes mandou-me uma colecção de velhas fotografias dos velhos barcos que, antes de 1974, asseguravam o transporte de pessoas e mercadorias entre Portugal e as Colónias. O assunto do email era: “Não é saudosismo, é nostalgia…”

Porque o “assunto” me irritou, respondi-lhe com a definição de nostalgia que os dicionários dizem vir do francês e ser uma tristeza profunda causada por saudades do afastamento da pátria ou da terra natal, um estado melancólico causado pela falta de algo.

E acrescentei que, não vendo que lhe faltasse algo que pudesse ser compensado pela visão de alguns velhos barcos, teria então de concluir que tal melancolia era provocada por saudades de uma "Pátria" que já não existe.

Mais acrescentei que, andando o meu amigo sempre a recomendar leituras, havia de permitir que lhe recomendasse os "Textos escolhidos, Vol. I: Portugal, o Ultramar e o futuro" de Manuel José Homem de Mello, recentemente reeditado e apresentado no passado dia 5 na Fundação Mário Soares (começa a ser tempo de os portugueses arrumarem esta questão e perceberem que as independências das colónias só pecaram, no que a Portugal diz respeito, por tardias).

É claro que o meu amigo não gostou e, claramente enxofrado, como se diz na minha terra, respondeu puxando dos seus galões anti-salazaristas de degredado para os Açores ao tempo da sua vida militar por ter sido considerado "Um oficial com ideias políticas" e recusou a responsabilidade do “assunto” já que havia reenviado o email tal como o tinha recebido e, apenas, por considerar que as imagens dos navios do velho Portugal colonial, além de serem um documento histórico, dizem muito àqueles que fizeram o seu serviço militar nas antigas colónias portuguesas.

Tudo isto é, por certo, muito verdade. Mas eu, que nem tenho especiais credenciais anti-salazaristas para exibir que gosto de história e sempre reveria com interesse um documento sobre a frota colonial portuguesa, posso também queixar-me de o “Alfredo da Silva”, que me levou para a Guiné, não fazer parte da galeria.


Mas não é disso que me queixo.


O meu amigo não viu ou não quis ver que o que está em causa é, apenas e só, o título do assunto que é, ele, todo um programa ideológico.


Parafraseando o que diz o Garrett, nas Viagens Na Minha Terra: Há emails que não deviam ter título e há títulos que não deviam ter email.

2009-10-14

A mãe do António Costa

Diz o António Costa numa entrevista ao DN: “A minha mãe está sempre em protesto. Há quarenta e oito anos que é assim, só varia o tema.”


O meu amigo é assim. Parece a mãe do António Costa. Está, há mais de trinta anos, (desde que o conheço), em protesto. Só varia o tema.

Agora na merecida reforma, ocupa os dias a enviar, a uma alargada lista de contactos, carradas de emails a protestar.

Só nos últimos dias, protestou contra o TGV, o NAL, a reforma do Padre Milícias, os vencimentos dos pivots da RTP e a Maitê Proença.

O meu amigo é um homem bom (condição que exijo de todos os meus amigos) mas tem o coração ao pé da boca.
 
O meu amigo faz-me, irresistivelmente, lembrar os Deolinda, de que também gosto muito, especialmente a canção Movimento Perpétuo Associativo que parece ter sido escrita a pensar nele:

 
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!

-Agora não, que é hora do almoço...
-Agora não, que é hora do jantar...
-Agora não, que eu acho que não posso...
-Amanhã vou trabalhar...

Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos de vencer!

-Agora não, que me dói a barriga...
-Agora não, dizem que vai chover...
-Agora não, que joga o Benfica...
e eu tenho mais que fazer...

Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, e é esta a direcção!

-Agora não, que falta um impresso...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...

-Vão sem mim, que eu vou lá ter...

O meu amigo parece a mãe do António Costa.

Acorda, diariamente, convencido de que a sua obrigação é protestar.



2009-10-07

VOTAÇÕES


O LRO leu o post EU VOTO PARTIDO SOCIALISTA e deixou um comentário a que é forçoso responder, desde logo porque, ou muito me engano, é o primeiro comentário a algo que tenha sido escrito neste blog.
Comecemos pelo PS (post scriptum): Diz ele que é uma pena só haver actualizações anuais. Será mesmo uma pena? Quer dizer, será que o que eu escrevo tem algum interesse para alguém? O comentário parece querer dizer que sim, a história do blog parece querer dizer que não, ou muito pouco, ou a muito poucos. Não é que isso me apoquente por aí além mas, às vezes lembro-me de que o mundo ficará mais ou menos na mesma, quer eu escreva ou não e, então, passo a dedicar mais atenção à minha horta, actividade que, entre muitas outras vantagens, faz descer o meu consumo de tabaco cerca de 50%.

Explicação dada, vamos então à política;

Diz o LRO: “Gostaria de saber porque é que cada voto que não vai para o Socrates é um voto na MFL. Isso é uma falácia repetida até à exaustão. Se tal fosse verdade não haveria necessidade de outros partidos e política era só a do poder bipolar e o resto é paisagem. Como os resultados das eleições demonstraram isso não é bem assim.”

Meu Caro LRO,
Por razões que seria demorado explicar, os nossos constituintes optaram por um sistema constitucional semi-pesidencialista quando se poderiam ter decidido ou por um sistema presidencialista, ou por um sistema parlamentarista. A originalidade (quando eu estudei estas coisas havia, ao que parece, sete países no mundo que tinham um sistema semi-presidencialista, incluindo a França que, vista de fora, parece mais presidencialista que outra coisa qualquer) tem tido os resultados que conheces.
Basicamente, foi assim:
O primeiro presidente, não contente com o voto dos portugueses, apadrinhou um partido;
O segundo presidente, não contente com o voto dos portugueses, inventou as presidências abertas;
O terceiro presidente, na ausência de voto dos portugueses, puxou dos galões e acabou com a bernarda em que isto ameaçava transformar-se;
O quarto presidente, não contente com o voto dos portugueses, … não é preciso explicar-te porque ainda tens nos ouvidos aquela inenarrável comunicação.

Como se fosse pouco, os nossos constituintes ainda estabeleceram, para todas as assembleias, um sistema eleitoral, (método de Hondt), com os resultados que também conheces.

A verdade é que, por quase todo o mundo, as eleições servem para escolher as maiorias que hão-de governar.

Em Portugal as eleições parecem servir para tudo menos para escolher quem há-de governar. Fazem-se eleições, nós votamos e todos os derrotados (derrotado é quem não ganha as eleições) continuam a falar como se nada tivesse acontecido, como se ainda não tivesse havido eleições, como se nenhuma importância tivesse tido o nosso voto.

Olha para as eleições do passado dia 27, tal como as vêem os partidos derrotados:
- O PCTP-MRPP ganhou direito a uma subvenção;
- A CDU ganhou eleitores e deputados;
- O BE ganhou votos e deputados;
- O CDS ganhou percentagem e deputados (dois dígitos, gritam eles todos contentes enquanto já falam em partir a espinha ao PSD);
- O PSD ganhou deputados e a Senhora acaba de ser vitoriada em Alcobaça por mil e quinhentos jantantes, e agradeceu com um discurso igualzinho ao que tinha antes das eleições;
- O PS perdeu a maioria absoluta.

Diz-me lá: não é estranho um país onde o único partido que perde é o que tem o maior número de votos?

O que é que tem este arrazoado a ver com a tua pergunta, dirás.
É simples:
Etimologicamente, a palavra Política vem do grego e significa governo da cidade.
Do que eu falava, no meu post, era disso, de Governação.

2009-09-24

Eu voto Partido socialista

Agora reparo que há mais de um ano que não escrevo neste blog.
Faltam pouco mais de 24 horas para terminar a campanha para as eleições legislativas.
É, pois, hora de deixar aqui o meu testemunho:
Eu vou votar PS. Eu vou votar José Sócrates.
Porquê?
Porque é o melhor de todos (o que, concedo, face à miséria concorrencial, não é grande proeza ).
Porque, evidentemente, a escolha é entre José Sócrates e Manuel Ferreira Leite.
Porque cada voto recusado ao Partido Socialista é um voto na Manuela Ferreira Leite

E, na Manuela Ferreira Leite, eu não voto nem morto.
Nunca votei a favor do passado. Não era agora, desta idade, que o ía fazer!

2008-05-11

De volta ao país real

O Diário de Notícias costuma publicar na sua última página, a propósito de um acontecimento do dia, uma pequena entrevista com uma pessoa que é suposto ser um observador previlegiado do dito acontecimento.
Vai daí, na passada sexta-feira, um diligente jornalista de que a caridade cristã obriga que se omita o nome foi, aproveitando o infeliz atropelamento de um grupo de peregrinos de Fátima, interpelar o Sr. Padre Manuel Antunes.
Certamente apercebendo-se de que a consistência das respostas não permitia - apesar do título, antetítulo, destaque e fotografia - encher os 320 cm2 que tinha ao seu dispor, o dito jornalista resolveu acrescentar, à meia dúzia de perguntas do costume, uma sétima:
Pensa que a crise económica pode levar a uma maior afluência de pessoas às celebrações do 13 de Maio?
A entrevista, as perguntas e as respostas, aí está para quem a quizer conferir.
Não é isso que agora me ocupa.
O que me preocupa é a imensa ignorância de que os nossos jornalistas fazem, diariamente, alarde.
Dando de barato que há uma crise económica, donde é que o Sr. Jornalista foi tirar a ideia de que tal teria repercussão imediata numa peregrinação?
Peregrinações, há-as desde tempos imemoriais. Faziam-nas povos pagãos, fazem-nas muçulmanos, católicos, indus e budistas.
Desconheço em absoluto qualquer estudo que tenha por objecto a análise da influência do clima económico na afluência às peregrinações e, consequentemente, desconheço qualquer estudo que demonstre que a afluência às peregrinações varia na proporção inversa do clima económico.
Parece, pois, legítimo perguntar: De que cartola é que – e para quê – tirou o Sr. Jornalista tal pergunta?

2008-05-04

Route 66 - Notas de Viagem XVIII

23-6-2007 – Los Angeles

Deixamos o motel e o seu estranho empregado, um homem de ar um pouco louco, com um longo pescoço curvado que lhe atirava a cabeça para diante, blusão de cabedal, calças coçadas que acabavam cinco centímetros acima dos sapatos, deixando ver uma larga faixa das peúgas brancas e circulava pelos corredores arrastando um grande saco de plástico com a roupa suja que, aliás, às vezes esquecia pelos cantos.
Para trás ficaram Hollywood e os seus contrastes, como esta rua a que a profusão de postes e fios dá um ar ligeiramente terceiro-mundista
e rumamos ao aeroporto internacional de Los Angeles numa viagem de cerca de 50Km, fazendo uma pequena volta para ver o oceano pacífico e terminar a Route 66, onde dizem que ela termina, no cais de Santa Mónica.
Demos uma volta pela 3th street Promenade, a rua pedonal onde se concentram as lojas e chegámos ao Will Rogers Boulevard, uma bonita alameda à beira-mar em cujos jardins há dezenas de sem-abrigo, alguns ainda a dormir sobre a relva, debaixo das árvores onde brincam esquilos.
Pelo caminho, registamos esta maneira muito americana de fazer publicidade
As praias, Santa Mónica, Venice e Playa Del Rey, pareceram-nos menos glamorosas do que quando vistas na televisão e, quanto a Life-Guards, reconhecemos o equipamento de socorro e a torre de vigia mas, de um grupo de algumas dezenas em sessão de treino, nenhuma preenchia os requisitos para integrar o elenco das Marés Vivas.
O Pacifício também não entusiasmou. O João e a Ana ainda vestiram os fatos de banho mas, concluindo que a água não estava lá muito quente, limitaram-se a molhar o pé. Eu sobre isso não me posso pronunciar e talvez o Caetano Veloso exagere quando fala do Pacífico turvo. Mas conheço águas mais bonitas. Peniche, por exemplo.
A nossa aventura, estava terminada. Tinha acabado de concluir uma viagem há muito sonhada e durante anos adiada, primeiro nem havia dinheiro, depois foi preciso convencer e entusiasmar a família. Estou feliz e eles estão tão felizes com eu
Haviam, ainda, de se seguir San Francisco e Nova Yorque.
Mas isso foram bónus.
Vamos para o aeroporto que eu tenho sempre medo de perder o avião.

Route 66 - Notas de Viagem XVII

22-6-2007 - Los Angeles
Hoje fomos ver onde moram os ricos. O contraste é quase brutal. Wollyhood é razoavelmente feio e desinteressante, agora que já lá não funcionam os estúdios e as estrelas só lá aparecem para a cerimónia dos óscars e pouco mais, daí o choque: chega-se ao cruzamento, somos recebidos por uma placa que nos dá as boas vindas a Beverly Hills e tudo muda. A esquadra é quase um monumento (já a conhecía-mos do filme do Eddy Murphy). Os jardins e os relvados brilham de aparados e há arvores centenárias na alameda.
Até os carros são diferentes, mais luxuosos e os Mercedes são quase tantos como na Serra de Tomar, antes da crise da construção civil.
Percebi mais tarde que nos quiosques se vendiam mapas das casas das estrelas de cinema. Mas a nossa curiosidade não era tanta. Limitamo-nos a circular um pouco e a registar que também as casas dos ricos são feitas de madeira .Se alguma das casas que vimos era de gente famosa? Não sabemos. Mas também não estamos preocupados com isso.
O Wilshire Hotel também já o vimos no Pretty Woman. Perto há uma loja fabulosa de cozinha e mesa, a Williams-Sonoma, capaz de deixar extasiados todos os amantes de cozinha. Vimos aí um dos poucos casos de produtos portugueses à venda: Umas louças típicas a imitar folhas de couve que se fazem nas Caldas da Raínha desde o tempo do Rafael Bordalo Pinheiro.
Numa rua paralela, a Rodeo Drive, está todo o luxo do mundo da moda, todas as lojas de roupa e adereços de todas as marcas que nunca compramos por serem demasiado caras.
Horas de almoço e, pelo seguro, optamos pelo Cheesekake Factory. Não engana. Já em Chicago tinha sido bom. Um dos empregados era brasileiro. Ouviu-nos falar e veio meter conversa.
O Getty Center está situado numa pequena colina, à qual se acede, após ter deixado o carro no parque de estacionamento do complexo, por um funicular.
Gostei do edifício (Richard Meyer) e comprei um livro a propósito para o Pedro. Azar! o Meyer é um dos seus ódios de estimação. Independentemente dos gostos arquitectónicos o museu é muito bom. Vimos a parte onde se expõe pintura europeia dos Séc. XVIII e XIX, onde sobressai uma bela colecção de impressionistas franceses.
A vista é extraordinária, desde Santa Mónica até às montanhas e melhor seria se não fora o permanente smog provocado pelos milhões de automóveis que circulam em Los Angeles.
Os auto-estradas já vão em 5x5 faixas e continuam engarrafados.
Ao jantar podemos falar português de novo, no rodízio brasileiro (pessoal de Minas, claro! todos os brasileiros que encontro fora do Brasil são de Minas) do Farmer’s Market de Wollyhood, um sítio bonito, com mercado, restaurantes, lojas, cinemas e animação de rua.Regressamos ao motel e pelo caminho voltamos a encontrar os sem-abrigo que são muitos, por todo o lado e mais ainda em Sunset Blvd e em Wollyhood Blvd, transportando os seus haveres em carrinhos de supermercado que, por vezes, prendem aos sinais de trânsito com correntes e cadeados.
Agora há que preparar as malas que amanhã é dia de voar para San Francisco.

Route 66 - Notas de Viagem XVI

21-6-2007 - Los Angeles
O dia de hoje estava inicialmente programado para começar com uma visita aos estúdios da Warner Bros mas acabámos por, como toda a gente, decidir ver a Univeral City.

Aqui já não se fazem filmes. Trata-se de um enorme complexo onde se entra para uma zona aberta de cafés, restaurantes e lojas, à qual se segue a área reservada da Universal propriamente dita e de novo cafés, restaurantes, exibições de grupos musicais, lojas e atracções várias, todas temáticas e relativas a filmes da Universal. Fomos ver o Shrek, os efeitos especiais e os animais actores. Há um tour, num comboio turístico que percorre os cenários dos filmes. Fica-se a saber como é que se simula o despiste de um camião ou o descarrilamento de um comboio, que as portas eram mais pequenas que o normal, para o cowboy parecer mais alto e mais uma série de truques de cinema. A simulação da enxurrada na aldeia (mexicana?)é espectacular.

Saímos cerca das dezasseis, depois de sete horas que não chegaram senão para uma parte do que há para ver.
Caetano Veloso que canta a desolação de Los Angeles e a considera uma das piores cidades onde já esteve, tem alguma razão. O antigo povoado espanhol de Nuestra Señora de Los Angeles de La Porciúncula cresceu e engoliu dezenas de cidades em redor e foi, ele próprio, engolido. Fica agora ali algures, entalado entre um cruzamentode auto-estradas e a estação de comboios, pontuado pelos arranha-céus onde se concentram os serviços governamentais e as grandes empresas. A relativa antiguidade do local é visível apenas em algumas ruas agora secundárias ladeadas de edifícios do princípio do Séc. XX, a maioria com ar razoavelmente decrépito. É também por aqui que fica o Walt Disney Concert Hall, mas eu não sou devoto do Ghery. Em frente, está o MoCa que hoje, entre as dezassete e as vinte horas, era de borla. Moderno de mais para o meu gosto.
Jantámos na Sunset Plaza, no Slader Saloon. Um sítio muito engraçado, com um touro mecânico e cheio de indígenas ruidosos. Comeu-se bem (excelente bife) e a preço razoável.
À noite descemos (é preciso subir primeiro) Mulholland Drive para apreciar o espectáculo da cidade iluminada. Vale muito a pena até porque à noite todas as cidades são bonitas vistas de longe (como dizia aquele turista brasileiro, face ao Mónaco iluminado: Pôxa! Parece a Rocinha!).

2008-04-27

route 66 - Notas de Viagem XV


20-6-2007 – De Las Vegas a Los Angeles
Às costumadas oito horas da manhã viramos costas a uma Las Vegas ainda adormecida, sob um sol já quente, pela I15, a caminho da Califórnia. A paisagem é cortada , de quando em quando, por casinos isolados no deserto que a quantidade de carros estacionados mostra que também são bastante frequentados. Fora isso, apenas, à esquerda da auto-estrada, a prisão correccional do Nevada, um enorme quadrilátero de arame farpado tendo no centro uma torre de controlo como as dos aeroportos. A entrada na Califórnia é assinalada pela passagem do Mountain Pass, a primeira vez que nos Estados Unidos vimos uma subida íngreme e longa, como por cá estamos habituados. As mudanças automáticas e o cruise control fazem aqui o seu melhor. O carro começa a roncar furiosamente e salta estrada acima às mesmas 75 milhas /hora programadas, provocando um pequeno susto em quem já se julgava mestre em condução nos States.
Cerca de 150 milhas andadas, sempre em paisagem desética, entre o Mohave e o Death Valley, fazemos um pequeno desvio para visitar Calico,
uma ghost town mineira que depois de décadas de decadência até ao abandono total, foi oferecida pelo proprietário à cidade de Barstow que a está a recuperar como Regional Park.
Almoçámos por dez dólares.
Mal nos sentámos no restaurante, a simpática funcionária, vestida a preceito à moda do Séc. XIX, com uma enorme saia rodada e blusa decotada de folhos, colocou na mesa um balde de esmalte cheio de amendoins cujas cascas se deitam para o chão (no alpendre caminha-se sobre um tapete de cascas de amendoim). Porquê? It's funny! Foi a resposta.
Há um comboiozinho que faz uma pequena volta turística para apreciar as antigas minas, estão recuperadas a prisão, a escola e as oficinas do ferreiro e do arrieiro, o hotel e várias casas onde se vendem os inevitáveis ghifts, postais, tshirts, cestos, velas, especiarias, compotas, vidros e cerâmicas e o objectivo é recuperar a totalidade da cidade. Um velho índio atravessa o terreiro sob o sol escaldante, apoiado numa bengala, um mineiro faz demontrações de garimpagem lavando “ouro” num peneiro e a entrada e o estacionamento ($6,00) são atentamente vigiados por um Xerife a fingir, de colt 45 à cintura. Vale a pena ver.
Vinte e cinco quilómetros mais e estamos de retorno à Route 66, em Barstow, onde não parámos. Aqui teremos, pela última vez, uma vista dos grandes comboios. Mais adiante, espera-nos a última grande paisagem natural do percurso: o Cajon Summit, na travessia das montanhas de São Gabriel. É o contraponto do Mountain Pass, uma descida vertiginosa, num cenário muito bonito e, passadas as montanhas, a Megalópole que conhecemos por Los Angeles.
Alojámo-nos num Super 8 Motel, um bocado manhoso (a par do de St. Louis, o pior de toda a viagem) mas bem situado, entre os Boulevard Hoolywood e Sunset .
Ainda deu para um passeio. Jantámos no Kodak Theatre, servidos por um chinês de Chicago que sabia algumas palavras de português.
O Kodak e o Boulevard Hollywood são bons exemplos da capacidade do cinema de criar ilusão de realidade. É então ali que se realiza a cerimónia dos Oscars? É quase difícil acreditar que aquele cenário possa ser, um dia no ano, o lugar mais glamoroso do planeta.
A propósito, o famosíssimo Walk of Fame é ali mesmo, no passeio. Cuidado! Não faça como eu que, quando reparei, já tinha pisado três das minhas actrizes favoritas.

2008-04-22

Route 66 - Notas de Viagem XIV

19-6-2007 – Las Vegas

Chegados ontem a Las Vegas, alojámo-nos no Sahara, um hotel casino já com alguma idade, (cá ficaram os Beatles, nos anos 60) bem situado no topo da Strip, no cruzamento com a Sahara Avenue, a que deu o nome e com preços muito em conta. Comer e dormir em Las Vegas pode ser, aliás, bem barato (quinze dólares podem ser suficientes para comer bem no Sahara e razoavelmente no Venetian). Ainda houve tempo para uma volta nocturna pela Downtown para ver a sua principal atracção, a Fremont Street em cuja cobertura são, a espaços, projectados espectáculos de luz e som.

Hoje foi dia de correr a via sacra dos grandes casinos. O melhor a fazer – e que fizemos – é comprar bilhetes para o monorail, já que andar na rua com o calor escaldante que se fazia sentir é coisa para arrumar em pouco tempo um turista desprevenido. Dormir a sesta no hotel, nas horas de maior calor é, também, actividade que se recomenda vivamente.
Salvo para aceder a determinados espectáculos ou restaurantes, parece não haver regras no vestir de modo que os casinos estão cheios de gente de calções e de chinelos.
Eu, pessoalmente, não gosto de jogar e nem o facto de já ter estado em muitos casinos, da Póvoa do Varzim a Monte Gordo, passando por quase todos os outros portugueses, pelo Mónaco e por Macau, me fez mudar de ideias. Las Vegas confirmou a minha convicção de que gente com juízo não joga.


Como em todo o lado, nos Estado Unidos, não se fuma dentro dos edifícios. Excepto, claro, nas salas de jogo. Eu, fumador (mais uma razão para não gostar de jogar. Admito que um vício fique bem a um homem. Dois vícios é, certamente, demais), aproveitei a sala de jogo do Sahara para fumar. Vi aí a cena que mais me impressionou em Las Vegas: Depois do almoço, no hotel, vou fumar um cigarro na sala de jogo e vejo um americano típico, enorme, chapéu à Indiana Jones, barba comprida e hirsuta de um grisalho amarelado, matraqueando furiosamente duas slot machines, uma com cada mão. Ainda lá estava, no mesmo estrafego, quando regressei para o último cigarro do dia, antes de ir dormir.
Mas é verdade que Las Vegas é uma doideira espectacular, cada casino maior que o outro, embora, no fundo, todos iguais: entra-se no Hotel e de um lado é o balcão da recepção e do outro abre-se a sala de jogo. A partir daqui acede-se aos restaurantes, às salas de espectáculo, aos quartos e às galerias comerciais, estas também com tendência para se tornarem todas iguais: Ruas com céus fingidos e lojas - todas as lojas, todas as marcas - e restaurantes e cafés com fachadas de cenário que nos tentam convencer de que andamos a passear na cidade-tema do casino (Nova Iorque no New York-New York, Veneza no Venetian, a Roma antiga no Caesar’s Palace). O mais luxuoso de todos, doentiamente luxuoso, é o Bellagio. Um dos mais bem feitos é, concerteza, o Paris. Com uma Torre Eiffel à escala ½, um dos pilares arrancando em plena sala de jogo e um restaurante no topo, como na Torre de verdade, o Arco de Triunfo e a fachada do Louvre e uma ambiência, na galeria comercial, tão bem fingida que não estranharei se amanhã me vierem dizer que alguém se aborreceu na Paris de França, com a desculpa de que já tinha visto aquilo em Vegas.

2008-04-13

Route 66 - Notas de viagem XIII

18-6-2007 - De Flagstaff a Las Vegas

A jornada de hoje havia de nos levar, andados cerca de 450 quilómetros, a Las Vegas, num desvio que um portugesinho, tão longe de casa e sem certezas de alguma vez voltar a estas bandas, não pode deixar de fazer mesmo que para isso tenha de sacrificar uma parte da Route 66 que, ao que leio, também tem muita coisas interessantes para ver.
Logo à saída do motel encontrámos esta curiosa demonstração de como um único motorista pode conduzir três camiões.

A primeira paragem foi em Williams, de onde parte o comboio para o Grand Canyon e chegou a estar no plano de viagem como local de dormida. no entanto, a opção de ficar duas noites em Flagstaff revelou-se, no entanto, bem acertada. Quer pela cidade quer porque esta viagem é fisicamente exigente e são grandes as vantagens de dormir duas noites seguidas na mesma cama e passar um dia sem fazer e desfazer as malas.
Continuamos a mais de dois mil metros de altitude, rodeados por uma enorme floresta (a Kaibab National Forest) de pinheiros (pinus ponderosa), uma das árvores mais comuns dos EUA, onde ocupa uma superfície total maior do que a de Portugal.
Williams que se designa (marca registada) Gateway to the Grand Canyon é, aos nossos olhos apressados, mais uma típica cidade americana de fronteira. Com pouco mais de 3000 habitantes, a sua localização previlegiada relativamente ao Grand Canyon, torna-a um destino turístico relevante, onde vale a pena parar, quanto mais não seja para, como nós, passear na Downtown bem conservada, com muitos edifícios de pedra e de tijolo e cheia de lojas interessantes ou curiosas e aproveitar para, no Williams Visitor Center, ir à internet enviar uns emails e conferir os recebidos.
Retomamos a I40. Os pinheiros começam a rarear até desaparecerem e retornarmos ao deserto. Setenta quilómetros andados, abandonamos a Interstate para entrar no mais longo troço contínuo da Route 66 ainda em uso.
O apogeu do american kitsch que, com frequência, rodeia a Route 66, é este estabelecimento de ar decrépito, em Selligman, onde se vendem bebidas frescas e toda a memorabilia da Route e se amontoam os símbolos dos felizes anos 50 numa amálgama que não chega a ser de mau gosto mas aparece aos nossos olhos como evidência da inocência que tantas vezes associamos aos americanos. É, efectivamente, de inocência que se trata. Por absurdo que vos pareça, o que me veio à cabeça perante tal visão foram aquelas hortas que todos conhecemos da beira dos auto-estradas nos arredores de Lisboa, onde reformados saudosos da origem rural plantam afincadamente hortaliças, despreocupados da óbvia poluição do local, enquanto, assustados com os potenciais prejuízos que a passarada, os cães e os passantes sejam capazes de provocar, rodeiam os canteiros de toscas sebes de madeira e chapa, enchem os cantos de bidões coloridos para garantir a rega e constroem espanta-pardais pendurando latas, garrafas de plástico e panos velhos, em paus e canas.

Mas hoje não vamos ver hortaliças. Apenas morros pedregosos onde, a espaços, se vislumbram ruínas de cidades fantasmas, restos de pequenos aglomerados que o tempo e o deserto engoliram ao ritmo do esgotamento das minas de prata que justificavam a sua existência. É o caso de Hackberry, oficialmente uma Ghost Town de que sobra o Hackberry General Store, com uma curiosa colecção de bombas de gasolina, máquinas de gelo e de coca-cola, fotografias de Marilyn Monroe e de Elvis Presley, anúncios e logos antigos incluindo um grande cavalo alado da Mobil, automóveis e pequenas camionetas dos anos quarenta e cinquenta. Um dos mais conhecidos ícones da Route 66 que é, também, um interessante museu no deserto com essa vantagem imensa, neste dia escaldante, de ter sombra e bebidas frescas.
Em Kingman alomoçamos, vimos os comboios da BNSF e viramos para Norte, pela US 93, sempre por paisagens áridas,


até à Hoover Dam.
Construída no tempo record de quatro anos, entre 1931 e 1935, a Hoover Dam é, ainda hoje, uma das maiores barragens do mundo, fornecendo energia eléctrica ao norte do Arizona, Las Vegas e grande parte do Nevada e Califórnia. Há visitas guiadas ao interior que não deixamos de fazer (não percebo porque é que a EDP não tem um programa consistentes de visitas a barragens). Estava um calor insuportável, mas isso não impedia centenas de turistas (um deles rigorosamente vestido de cowboy, incluindo cinturão de onde pendia um pequeno coldre que era a bolsa do telemóvel) de admirar uma das grandes obras de engenharia dos EU.


Entramos no Nevada, passando ao lado de Boulder City, a cidade construída para alojar os trabalhadores que fizeram a barragem e, pouco depois, começa a surgir do deserto, como gigantesca miragem, o absurdo de Las Vegas.

2008-04-04

Route 66 - Notas de viagem XII

17-6-2007 - Grand Canyon

O dia de hoje estava reservado para a visita ao Grand Canyon.
Traçámos um percurso um percurso de cerca de 350 quilómetros com passagem pelo Sunset Crater National Monument.

E pelo Wupatki National Monument, ruínas de uma aldeia de pedra, testemunho de uma civilização desaparecida. (como bónus, sempre que as vistas se abriam à nossa direita, a paisagem fabulosa do Painted Desert).

Não estava na lista (nem sabia que existia) mas soube bem. Antes do Grand Canyon, uma paragem no Litle Colorado River Gorge, Navajo Tribal Park.

O Grand Canyon, esse, não tenho talentos literários para vos contar como é. Se puderem, vão ver com os vossos próprios olhos.


Se lá puderem ir e pedirem para lhes tirarem uma fotografia vão, certamente, ficar com um ar tão feliz como nós ficámos.


O regresso a Flagstaff foi feito por Oeste, pela US 180, através da Cococino National Forest, ladeando o Humphrey's Peak que, com os seus 3850 metros é a montanha mais alta da região ao abrigo da qual se desenvolvem as estãncias de inverno do Flagstaff Nordic Center.


2008-03-30

Route 66 - Notas de viagem XI

16-6-2007 – 5.º Dia na estrada
Como sempre, às oito horas da manhã estavamos sentados no Nissan X Terra, prontos para iniciar o shigtseeing tour de Grants e retomar o caminho do Oeste pela I40.
O semi-deserto do Novo México continua a desfilar à nossa volta, a espaços cortado por um comboio de mercadorias, os vagões de contentores recortando-se na paisagem como ameias de um castelo medieval.


Junto a um lugar insignificante chamado Coolidge, uma breve paragem para documentar o Continental Divide. Nada de extraordinário, para além da placa explicativa e a surpresa de nos descobrir-mos a uma altitude superior à da serra da Estrela, num lugar onde a imensidão da planície me não nos permite a percepção de altitude (falta-nos o mar), o que temos é, de um lado da estrada umas construções abandonadas, do outro lado um café rasca com uma loja de recordações anexa.

Atravessamos a fronteira dos Estados e entramos no Arizona para, cerca das dez horas, como programado, abandonar a I40 na saída 111 e visitar o Petrified Forest National Park, sob um sol abrasador de quase quarenta graus.



Almoçámos em Holbrook, de onde trouxemos uma belíssima recordação de viagem: o livro “Holbrook and the Petrified Forest”. À medida que nos aproximamos de Flagstaff o deserto começa a perder terreno. Quando os pinheiros, finalmente, dominam a paisagem, estamos na cidade mais cosmopolita que encontramos desde Chicago. Uma downtown de pedra, arquitectonicamente muito interessante e dezenas de cafés, pubs, restaurantes e lojas e imensa gente na rua.
Alojámo-nos, como de costume no Super 8 Motel, desta vez numa gigantesca suite com kitchnet totalmente equipada (que não usámos) e 3 Queen Beds, numa área de cerca de cinquenta metros quadrados, tudo por menos de vinte dólares por cabeça e por noite.
Jantámos num restaurante italiano. Um verdadeiro e excelente restaurante italiano, este “Pasto” que não anda longe de cumprir o seu objectivo de fornecer aos clientes a mais fina experiência gastronómica do norte do Arizona. As excelentes salas, decoradas com gosto e moderação, o simpático pátio onde comemos, o aparelhamento das mesas, a apresentação e a qualidade dos pratos, a extensão e variedade da lista de vinhos e o serviço discreto, simpático e eficiente, tudo completado por uma loja gourmet anexa, também de excecelente aspecto, fazem do PASTO um bom restaurante em qualquer parte no mundo. Escusado será dizer que foi a refeição mais cara da viagem. Mas nada que se não pague em Lisboa à minima distracção e por menos qualidade.

À noite arrefece. Que bom.

2008-03-17

Route 66 - Notas de Viagem X

15-6-2007 - 4.º dia na estrada (2ª parte)

Sant Fé, The City Different é, hoje em dia, um dos destinos turísticos mais frequentado dos Estados Unidos. Tem tudo para isso: Uma história - maior do que o país - que vem desde o Séc.XVI, o título da UNESCO de Creative City of Folk Art, Crafts & Design e a espectacular arquitectura de adobe que a distingue de todas as demais e é cuidadosamente preservada e glosada nas novas construções.
O centro de Santa Fé é a Plaza, dominada pelo Palácio dos Governadores, o edíficio público mais antigo da América, ao longo de quatro séculos sede de poder de três soberanias diferentes: espanhola, mexicana e americana. Hoje é um museu e sob o seu enorme alpendre abrigam-se, dos inclementes 38º C, dezenas de índios vendendo os seus artesanatos. Um pedaço da tarde não dá para mais do que chegar, observar o bulício de turistas, espreitar as lojas, passear um pouco, entrar na Catedral Basílica de São Francisco de Assis e comprar um folheto que nos fala da primeira índia declarada santa pela Igreja Católica e parar por uns instantes a observar a sua estátua.
Descemos para Albuquerque pelo percurso chamado The Turqoise Trail (NM14), uma National Scenic Byway, numa região de antigas minas de turquesas. A idéia era ter ainda algum tempo para dar uma vista de olhos por Albuquerque que, segundo as informações que levávamos, tem um núcleo urbano antigo que a merece. As Sandia Mountains começaram, no entanto, a impor-se à nossa vista, pelo que decidimos subir até ao Sandia Peak. Ninguém ficou arrependido que não é todos os dias que podemos chegar a mais de três mil metros e disfrutar uma vista soberba, até ao horizonte, sobre a planície do Novo México.

Ficou Albuquerque por ver que, dali até Grants, eram mais cento e muitos quilómetros. Não me lembro onde nem o que jantámos. Mas lembro-me deste céu extraordinário ao pôr do sol:


Grants, já o sabia, não tinha, para nós, nada de especial a ver. É, apenas, uma típica cidade americana destas bandas: 30 motéis, bombas de gasolina, restaurantes, campo de golfe, 9.000 habitantes e (diz o respectivo site) vinte e oito igrejas de muitas confissões. De qualquer modo, eram horas de dormir. E foi para dormir que Grants entrou no nosso plano de viagem.

2008-03-11

Route 66 - Notas de viagem IX

15-6-2007 - 4.º dia na estrada
Levantámo-nos à hora marcada e, banho tomado e malas feitas e colocadas no carro estacionado à porta do quarto, fomos ao pequeno-almoço que neste Motel começam a servir às quatro da manhã.
A caminho da farmácia aproveitamos para dar uma breve vista de olhos pela cidade (breve, porque o tempo é curto e estas cidades oferecem-se aos olhos dos visitantes todas muito iguais), dando especial atenção aos edifícios mais antigos e aos murais que, a par dos néons no Route 66 Boulevard, são a marca local e cujo mapa, recolhido na net, já ía de Lisboa.
Tucumcari, como Cuba, MO, reclamam-se do título de The Mural City, precisamente pela quantidade e dimensões dessa forma americana de expressão que são as paredes pintadas, em geral em tom realista e com apreciável qualidade artística, com cenas que relatam momentos ou aspectos importantes da história e vida locais, como se fossem pranchas de banda desenhada, do mesmo evidente intento pedagógico das pinturas das igrejas medievais europeias que, através de sucessivos quadros, contavam aos crentes analfabetos as histórias da Bíblia e dos Santos.


Feito isto e uma paragem no Visitors Information Center local, antes das dez horas estávamos em plena estrada a caminho de Santa Rosa que, já vos disse, é uma gigantesca bomba de gasolina no deserto. Mas um deserto não é um vazio. Está cheio de coisas e de vida, como esta tartaruga que nos surpreendeu durante uma breve paragem na beira da estrada.


Mais uma paragem, num retiro para camionistas, deu para esticar as pernas, comer uma sandes e mirar e fotografar de perto um dos típicos camiões americanos.


O objectivo, conseguido, era terminar a meia jornada da manhã a almoçar no Bobcat Bite, em Santa Fé. Eis mais um lugar que bem merece a estrela que lhe atribui o Route 66 Dining & Lodging Guide.

2008-03-09

Route 66 - Notas de viagem VIII


14-6-2007 - 3.º dia na estrada

Ontem andamos às voltas em Oklahoma City e anteontem andámos de carro uns míseros 185 km. São, pois, dias de que não se pode dizer que tenham sido na estrada. Hoje sim. Mais de 600 (que acabam por ser quase setecentos) quilómetros haviam de levar-nos até Tucumcari, já no Novo México, com breve atravessamento do Texas.
As paragens planeadas incluiam Clinton e Elk City, ainda no Oklahoma e McLean e Amarillo no Texas.
Em Clinton, cidadezinha com menos de 10 mil habitantes (menos de 30.000 no County) que, pomposamente, se intitula Hub City of Western Oklahoma, há coisas que são vulgares na América mas a que não estamos habituados: Há uma Câmara de Comércio que suporta o site a partir do qual se pode aceder a quase tudo o que interessa na cidade. Pode-se requerer na internet uma licença de construção. Há mais de vinte igrejas pertencentes a mais de uma dúzia de confissões diferentes, incluindo a católica e há o Oklahoma Route 66 Museum. Este era o objectivo da paragem e a expectativa não foi defraudada. Carros e bombas de gasolina antigas, objectos diversos, muitas fotografias, mapas gráficos e textos explicativos e um video no pequeno auditório, informam-nos sobre a história da epopeia que foi a construção da rua principal da América.
Elk City e McLean não deixaram recordações que aqui possa registar, ía eu a escrever. Nestas alturas o melhor – que a memória não chega para tudo -, é rever os apontamentos e as fotos. E lá estão:
Em Elk City, num complexo impecavelmente tratado, todos os edifícios que recordam os primórdios do território do Oklahoma. Um museu ao ar livre. Uma cidade de cowboys como as conhecemos do cinema, não fora agora estar tudo arrumado, limpo, relvado.
McLean tem, além do museu do arame farpado que não vimos e da primeira bomba de gasolina construída no Texas pela Phillips 66, o Red River Steak House, onde almoçamos bem num lugar preservado acompanhados de um grupo de motards. Ainda antes, mal acabados de entrar no Texas, paramos em mais um Tourist Information Center que deveria fazer corar os que em Portugal tratam de turismo: espaçoso, acolhedor, toneladas de informação gratuita à disposição dos viajantes. Pela informação recolhida e porque uma pequena volta por Amarillo não os nos convenceu a ficar mais tempo e porque no Texas o relógio atrasou uma hora, decidimos que tínhamos tempo de sobra e resolvemos descer cerca de 30 quilómetros para um auto-tour pelo Palo Duro Canyon (Texas State Park). Saímos de lá já ao anoitecer, mas valeu bem a pena e deu para ver que também na gestão de parques naturais temos ainda muito para aprender. E para participar. Uma boa parte do trabalho é, ali, feito por voluntários.
Regressámos a Amarillo e retomamos a I40 para mais cerca de 200 km.
Da estrada vislubramos o Cadillac Ranch, ícone da pop art mas a paragem foi em Adrian, The Midpoint of Route 66. A acreditar no cartaz, 1139 milhas separavam-nos de Chicago e outras tantas de Los Angeles. O café estava fechado com o aviso de que abria e fechava quando dava na telha ao proprietário.
Na fronteira do Novo México fizémos uma breve saída da estrada para circular pela pequena e agora cidade fantasma de Glenrio, onde o único sinal de vida era uma estação de serviço constuída 100 metros ao lado de uma outra abandonada.
Chegámos a Tucumcari noite escura onde, após um jantar de que já falei a propósito de mosquitos, nos esperavam (por 22 dólares a cada um) camas confortáveis das quais, no dia seguinte pelas 7H00, teríamos de saltar para mais uma jornada comprida.


Notícias


Route 66 – Notas de viagem VII

Tirando alguns jornais gratuitos (o Metro é igual mas vem agrafado como uma revista. Cada número do Village Voice tem mais anúncios de serviços sexuais que uma semana inteira de Diário de Notícias e também com muitas – as mesmas – fotografias coloridas) que os americanos têm numas caixas metálicas perfiladas na borda do passeio – os pagos também estão em caixas idênticas, alinhadas na mesma correnteza, mas que só abrem contra a introdução das necessárias moedas – a nossa relação com a comunicação social resumiu-se ao automatismo de ligar a televisão nos quartos dos hotéis. Partimos cheios de vontade de ouvir música nas longas horas de viagem e fomos carregados com uma caixa de CD’s. A verdade é que ouvimos um e as rádios não foram suficientemente apelativas para que nos calássemos a ouvi-las. A paisagem lenta. O olha! viste? A atenção às pequenas coisas que iam desfilando perante os nossos olhos ávidos. Um road runner fugidio tal como o seu irmão Bip Bip dos desenhos animados. Aqueles ratos que ficam de pé a mirar atentos em redor. E nós, como eles, com vontade de ver tudo, sobrepuseram-se a qualquer desejo de informação mediada.
Ficou, pois, só a televisão. Lá, como cá: Novelas e telenovelas. Novelas para hispãnicos onde só há hispãnicos. Soap operas com famílias negras. Novelas, telenovelas e soap operas com histórias de brancos e intérpetres brancos. Directos de desgraças. O Weather Channel que também prefere as trovoadas ao bom tempo e tem diariamente de inventar modo de encher 24 horas. E a CNN.
Desgosto. Espanto. Incredulidade. Eu que estava convencido que a CNN era o rigor em forma de ecran, colmeia de reporteres oportunos, corajosos e objectivos dou com quê? Com a TVI em inglês.
A Paris Hilton que é uma espécie de Cinha Jardim lá do sítio, mas mais rica, mais nova e, tenho de o reconhecer, mais feia, tinha-se deixado prender já nem me lembra bem porquê.
Vai daí, uma pessoa levantava-se, ligava o aparelho e lá estava na CNN: reportagem de exterior, a menina a entrar na prisão, a menina a sair da prisão, depoimentos de advogados, de celebridades várias, do motorista e do jardineiro e do jardineiro que nada sabia do assunto e só estava a jardinar quando a Paris por alí passou. Chegava-se ao hotel há noite e imaginava-se que todo o dia teria sido assim. Mais directos, mais entrevistas a quem nada tinha a dizer sobre o assunto, mais depoimentos com ar sério como se de coisa séria se tratasse, debates em estúdio.
Terminou tudo, como sabemos, no Larry King.
Vista na América, a CNN parece-se estranhamente com a TVI.

2008-02-17

Route 66 - Notas de Viagam VI




11-6-2007 - 2.º dia na estrada

Como previsto no plano traçado, às 8h00 era tempo de estar sentado ao volante e iniciar a viagem que hoje ía ser longa. Segundo o MapQuest, 668 Km e 7H20 de condução haviam de nos levar até Tulsa, OK, com paragens em Carthage e Joplin, ambas ainda no Missouri.
Acabámos, como noutro lado expliquei, por nos demorarmos em Cuba e, também, em Spingfield (onde almoçámos no George Steak Restaurant, os quatro por $25,00) e, mais ainda, em Carthage. Estamos em pleno palco da Guerra Civil: Em Cuba, Springfield, Carthage e todo o Missouri travaram-se violentas batalhas que hoje se recordam em museus, memoriais, bibliotecas e desfiles.
A ana conduziu pela 1ª vez.
Desde Chicago que o Weather Channel nos vinha avisando que havia uma tempestade que assolava o Kansas e o Oklahoma e, depois, o Missouri e se dirigia para Leste. Não demos por ela que terá passado por nós na noite anterior enquanto dormíamos mas, chegados a Tulsa, lá estava na televisão o costumado repórter estérico excitado, a ampliar o fenómeno e as pequenas cheias e a entrevistar velhinhos desdentados. O único testemunho que vimos com os nossos olhos foi nos arredores de Carthage e era constituído por dois americanos patuscos, de pronúncia cerrada e quase incomprensível que pescavam bem dispostos na estrada, tentando apanhar algum peixe distraído que tivesse vindo no transbordo do Kellogg Lake.
Carthage tem uma arquitectura muito interessante com um valioso e, por estas bandas, raro conjunto de edifícios de pedra, construídos na viragem do Séc. XIX para do Séc. XX e já hoje, na sua maioria, incluídos no National Register of Historic Places. Importa visitar o Carthage Historic Square, em torno da Jasper Couty Couthouse e fazer o Victorian Home Driving Tour. Não é preciso perguntar a ninguém. Também aqui há um Convention and Visitors Bureau, onde abundante e qualificada informação está à disposição gratuita dos visitantes.
Mais 25 Km andados e estamos em Joplin. A paragem não tinha razão especial, apenas estava no caminho e o plano indicava que, de Springfield a Tulsa iríamos pela Route 66 olhando as pequenas povoações que se sucediam, para chegar ao destino às 17H00. Demos uma volta e seguimos, a caminho do Oklahoma. Chegámos a Tulsa mais tarde que o previsto, está bom de ver, mas ainda a tempo de jantar, não muito bem mas ridiculamente barato, no Captain D’s seafood kitchen.